A cidade de Salvador cresceu, durante séculos, voltada para o mar. O porto era a porta de entrada e saída de tudo: mercadorias, notícias, pessoas e, sobretudo, trabalho. É nesse cenário de cordas, guindastes e sacas de cacau que a capoeira encontrou um dos seus territórios mais antigos e mais vivos — o cais do porto, onde estivadores, marinheiros e trabalhadores braçais transformavam os intervalos do expediente em roda, canto e jogo.
A relação entre a capoeira e o universo portuário não é um detalhe folclórico. Ela faz parte da história social da cidade. O trabalho pesado de carga e descarga exigia corpos fortes, mas também criava uma convivência intensa entre homens de origens variadas, muitos deles negros e descendentes de africanos escravizados ou libertos. Nesse ambiente, a capoeira funcionava como linguagem comum, como espaço de identidade e como válvula de escape para as tensões de uma rotina dura.
Para entender essa ligação, é preciso imaginar o cotidiano do cais antigo. Navios atracavam ao amanhecer, e centenas de trabalhadores se revezavam entre o porão e o trapiche, carregando fardos sob o sol. A jornada era extenuante, mal paga e marcada por acidentes. Ao fim do dia, o corpo exausto buscava alívio — e, para muitos, o alívio tinha a forma de uma roda de capoeira montada à beira-mar, com berimbau, canto e jogo até a noite cair.
O porto como território de trabalho
O cais era um lugar de encontro obrigatório. Antes da mecanização do trabalho portuário, a força humana movia a economia marítima. Estivadores descarregavam navios à base de músculo, corda e equilíbrio — exatamente as qualidades que a capoeira desenvolve. Não é por acaso que muitos relatos orais associam os grandes jogadores das primeiras décadas do século XX ao trabalho no porto e na orla.
Historiadores da capoeira apontam que a zona portuária de Salvador concentrava rodas informais, disputas e também a transmissão de conhecimento entre gerações. Ainda que a documentação escrita sobre essas rodas seja escassa, a memória oral conserva a imagem de trabalhadores que, ao fim do turno, se reuniam para tocar berimbau e jogar, muitas vezes ao som das ondas e sob a luz dos lampiões.
O porto era também um ponto de passagem de viajantes e de novidades. Por ali circulavam modas, músicas e notícias de outras cidades e de outros países. A capoeira, inserida nesse fluxo, recebia e devolvia influências, mantendo-se ao mesmo tempo enraizada na tradição local e aberta ao que vinha de fora.
Estivadores e a roda à beira-mar
A palavra “estivador” vem do universo de quem arruma e movimenta cargas a bordo. Esse ofício, historicamente exercido por uma população majoritariamente negra e pobre, produziu uma cultura própria, marcada pela solidariedade e pelo orgulho do ofício. A capoeira se inseria nesse cotidiano como lazer, mas também como forma de afirmação.
Os relatos indicam que as rodas do cais tinham um caráter particular: eram mais soltas, menos institucionalizadas do que as academias que surgiriam depois, e reuniam gente que vinha do trabalho direto para o jogo. Essa capoeira de rua, ligada ao suor e ao mar, é considerada por muitos pesquisadores uma das raízes da capoeira baiana que depois se formalizou com mestres como Bimba e Pastinha.
Havia, ainda, uma dimensão de proteção e de sociabilidade nessas rodas. Em um ambiente de trabalho duro e hierarquizado, a capoeira criava laços que iam além do expediente: amizades, alianças e uma rede de apoio mútuo que se estendia para fora do porto, alcançando os bairros populares próximos à orla.
Mestres do cais
O nome mais frequentemente associado ao cais de Salvador é o de Mestre Waldemar da Paixão, que ficou conhecido justamente pela ligação com o porto. Waldemar é lembrado como um grande tocador de berimbau, dono de uma musicalidade que marcou época, e sua roda, realizada em local próximo ao cais, tornou-se ponto de referência para capoeiristas e curiosos nas décadas de 1940 e 1950.
É importante, porém, ter cautela com as narrativas que cercam esses mestres. Muitas informações chegaram até nós pela memória oral e por gravações feitas décadas depois dos fatos. A historiografia trabalha com a convergência de relatos, e não com registros documentais exatos. O que se pode afirmar com segurança é que o cais de Salvador foi, de fato, um polo da capoeira baiana do século XX, e que Waldemar da Paixão se tornou um símbolo dessa ligação entre a capoeira e o mundo do trabalho portuário.
A capoeira entre o trabalho e a festa
O cais também era ponte entre o trabalho e a festa. Dali saíam e chegavam trabalhadores que circulavam entre a cidade alta e a cidade baixa, entre os mercados, os saveiros e os terreiros. A capoeira, com sua música e seu jogo, cumpria o papel de costurar esses mundos: era ao mesmo tempo descanso, celebração e resistência.
As festas populares de Salvador — as lavagens, os cortejos e as comemorações religiosas — tinham no porto um dos seus pontos de passagem. A capoeira acompanhava esses cortejos, e a presença dos estivadores e trabalhadores do cais nessas ocasiões ajudava a manter acesa a chama da tradição. O porto, assim, não era apenas local de trabalho: era também palco de cultura.
Hoje, quando a memória do porto antigo é revisitada, a capoeira aparece como um dos seus elementos mais simbólicos. A imagem do estivador que vira capoeirista ao cair da tarde resume uma época em que o corpo do trabalhador era, ao mesmo tempo, instrumento de sobrevivência e de arte. Preservar essa memória é reconhecer que a capoeira nasceu, em grande parte, do cotidiano das classes trabalhadoras baianas — e que o mar foi testemunha de muitas dessas rodas.
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