A abolição da escravidão, em 13 de maio de 1888, foi um marco na história do Brasil, mas a liberdade não chegou de repente: foi conquistada por séculos de resistência. A capoeira esteve presente nesse processo, como forma de luta, de identidade e de afirmação de um povo que se recusou a aceitar o cativeiro. Entender a relação entre a capoeira e a abolição é compreender a própria alma da arte.
A capoeira no período da escravidão
Durante os séculos de escravidão, a capoeira se desenvolveu como uma prática de resistência. Disfarçada de dança, escondia uma luta eficiente, que permitia aos escravizados se defenderem e se prepararem para a fuga. Nas senzalas, nos portos e nas ruas, a capoeira era um espaço de liberdade dentro do cativeiro.
Mais do que luta, a capoeira era cultura. Nela se encontravam a música, a dança, a religiosidade e a memória dos povos africanos, mantidas vivas apesar da brutalidade da escravidão. A roda de capoeira era um território de resistência simbólica, onde a identidade africana se afirmava e se renovava.
Os quilombos e a luta pela liberdade
A resistência à escravidão teve nos quilombos seu símbolo mais forte. O Quilombo dos Palmares, que resistiu por quase um século, inspirou gerações de africanos e afrodescendentes a lutarem pela liberdade. A capoeira, associada à memória quilombola, carrega em si essa herança de luta e de recusa à submissão.
Relatos e estudos indicam que a capoeira circulava entre os quilombos e as cidades, conectando as comunidades livres aos escravizados que ainda viviam sob o jugo. Era uma rede de resistência, na qual a capoeira funcionava como linguagem comum e como instrumento de organização.
A caminho da abolição
Nas décadas que antecederam a abolição, a luta contra a escravidão ganhou força. O movimento abolicionista cresceu, e a pressão interna e externa tornou a manutenção do sistema escravista insustentável. Nesse contexto, a capoeira seguiu presente nas ruas, como expressão da população negra que reivindicava seu lugar na sociedade.
Os capoeiristas, muitos deles libertos ou livres, participaram ativamente do cotidiano urbano, e a capoeira continuou sendo um símbolo de resistência e de identidade. A libertação formal, em 1888, não resolveu as desigualdades, mas abriu um novo capítulo na história da população negra e da própria capoeira.
As leis abolicionistas e o papel da resistência
A abolição não foi um ato isolado, mas o desfecho de um longo processo marcado por leis e pressões sucessivas. Medidas como a Lei do Ventre Livre, de 1871, e a Lei dos Sexagenários, de 1885, resultaram de décadas de luta. Em todas essas etapas, a mobilização dos próprios escravizados e de seus aliados foi decisiva, e a capoeira acompanhou esse movimento como expressão de uma população que não aceitava passivamente a opressão.
É importante destacar que a abolição foi, em grande medida, uma conquista negra. Muitos historiadores ressaltam que a pressão exercida pelos escravizados — por meio de fugas, rebeliões e quilombos — foi um dos fatores centrais para o fim do sistema. A capoeira, como prática nascida nesse contexto, é parte viva dessa memória de luta.
A vida após a abolição
O 13 de maio de 1888 libertou formalmente os escravizados, mas não lhes garantiu terra, trabalho digno ou direitos. A população negra liberta foi lançada a uma realidade de exclusão, e a capoeira continuou sendo, para muitos, meio de sobrevivência e de pertencimento. Nas cidades, os capoeiristas formavam redes de apoio mútuo que amenizavam, em parte, o abandono do Estado.
Essa continuidade da luta após a abolição é um ponto frequentemente esquecido. A liberdade conquistada precisou ser defendida dia após dia, e a capoeira seguiu cumprindo seu papel de instrumento de resistência e de afirmação cultural para as gerações seguintes.
A memória da abolição na roda
A memória da abolição e da resistência negra permanece viva nas cantigas e nos rituais da capoeira. Muitas ladainhas e corridos evocam a luta pela liberdade, os quilombos e as figuras históricas ligadas à resistência. Ao cantá-las, os capoeiristas mantêm acesa a lembrança de um passado que não pode ser esquecido.
Nas rodas contemporâneas, sobretudo em datas como o 13 de maio e o 20 de novembro, essa memória é reafirmada com força. A capoeira se apresenta, então, não apenas como arte ou esporte, mas como testemunho vivo de uma história de dor e de superação, que segue ensinando a importância da liberdade e da igualdade.
Da abolição à criminalização
Paradoxalmente, a abolição foi seguida, dois anos depois, pela criminalização da capoeira no Código Penal de 1890. A liberdade conquistada não se traduziu em direitos, e a população negra liberta foi empurrada para as margens. A capoeira, símbolo dessa população, tornou-se alvo da repressão republicana.
Ainda assim, a capoeira sobreviveu. E é justamente essa sobrevivência que a torna um testemunho vivo da resistência negra. Da senzala à roda contemporânea, a capoeira atravessou a escravidão, a abolição e a perseguição, provando que a luta pela liberdade é uma chama que não se apaga.
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