No século XIX, a cidade do Rio de Janeiro era palco de um fenômeno que marcou profundamente a história da capoeira: as maltas. Esses grupos organizados de capoeiristas dominavam as ruas, atuavam em conflitos urbanos e eram temidos e cortejados por políticos e autoridades. Foi um período em que a capoeira deixou de ser apenas uma prática de resistência para se tornar uma força social e política nas ruas da capital do Império.
O que eram as maltas
As maltas eram agrupamentos de capoeiristas que controlavam territórios específicos da cidade. Eram organizadas com hierarquias próprias, rituais de iniciação e códigos de conduta internos. Cada malta tinha sua área de influência, e os conflitos entre grupos rivais pelo controle das ruas eram frequentes e violentos.
Entre as maltas mais conhecidas estavam os Nagoas e os Guaiamuns, que se enfrentavam em disputas que mobilizavam dezenas de capoeiristas. Registros históricos indicam que essas rivalidades eram exploradas por lideranças políticas, que usavam os capoeiristas como força de intimidação em disputas eleitorais e na manutenção do poder local.
Nagoas e Guaiamuns
A rivalidade entre Nagoas e Guaiamuns atravessou boa parte do século XIX e deixou marcas na cultura popular. Os Nagoas eram associados à cor vermelha e tinham forte ligação com as tradições de origem iorubá; os Guaiamuns, ligados à cor branca, remetiam ao caranguejo guaiamum, comum nos manguezais. As cores serviam como identificação nas ruas, e os confrontos entre os dois grupos se tornaram célebres.
Estudiosos apontam que essa rivalidade, embora violenta, também funcionava como forma de organização social para uma população excluída. As maltas ofereciam pertencimento, proteção e uma identidade coletiva a homens que viviam à margem da sociedade imperial, preenchendo um vazio deixado pela ausência do Estado.
O cotidiano violento do Rio imperial
O Rio de Janeiro do século XIX era uma cidade em transformação, marcada por profundas desigualdades. A população de negros livres, libertos e escravizados vivia em condições precárias, e a capoeira oferecia a muitos uma forma de sobrevivência, proteção e pertencimento. As maltas, nesse contexto, funcionavam como redes de solidariedade e, ao mesmo tempo, como instrumentos de violência.
As ruas eram o palco dos confrontos. Navalhas e facas eram armas comuns, e os encontros entre maltas rivais podiam terminar em feridos e mortos. A imprensa da época registrava com alarme os episódios de violência, ajudando a construir a imagem do capoeirista como um marginal perigoso.
Capoeira e política
Um dos aspectos mais marcantes desse período foi a relação entre as maltas e a política imperial. Relatos históricos apontam que capoeiristas eram contratados por políticos para garantir a segurança de comícios, intimidar adversários e até fraudar eleições. Em troca, recebiam proteção e, por vezes, empregos públicos.
Essa proximidade com o poder tornava as maltas ainda mais difíceis de reprimir, pois muitos de seus membros gozavam de certa impunidade. A capoeira, assim, transitava entre o submundo e os corredores do poder, num jogo de interesses que marcou o período.
A vida nos quarteirões
Para além das disputas políticas, as maltas estruturavam o cotidiano dos bairros onde atuavam. Elas organizavam festas, procissões e outras atividades comunitárias, exercendo uma liderança informal sobre a população local. O capoeirista, nesse contexto, não era apenas um lutador: era também um articulador social, respeitado e temido na mesma medida.
Essa dupla face — protetor e agressor — ajuda a compreender a complexidade das maltas. Elas não eram simples gangues criminosas, mas organizações que, à sua maneira, organizavam a vida de uma população abandonada pelo poder público e marginalizada pela sociedade escravista.
A navalha e o cotidiano
A navalha era a arma símbolo do capoeirista das maltas, usada nos confrontos e carregada como instrumento de defesa e de status. Seu manejo exigia habilidade, e muitos capoeiristas desenvolveram técnicas próprias, transformando a lâmina em extensão do corpo. A fama da navalha contribuiu para a imagem temida do capoeirista nas ruas do Rio de Janeiro.
Além das armas, as maltas tinham sinais de identificação, como cores, lenços e apelidos, que demarcavam pertencimento e território. Esses códigos visuais permitiam reconhecer aliados e rivais à distância, estruturando uma sociabilidade própria que misturava lealdade, rivalidade e sobrevivência num ambiente urbano hostil e em constante disputa.
O fim das maltas e a criminalização
Com a proclamação da República, em 1889, a relação das autoridades com a capoeira mudou. O novo regime buscava modernizar o país e eliminar os focos de desordem urbana. Em 1890, o Código Penal republicano criminalizou a prática da capoeira, e as maltas passaram a ser alvo de repressão sistemática.
Muitos capoeiristas foram presos e deportados para o arquipélago de Fernando de Noronha. A repressão desarticulou as maltas do Rio, mas não conseguiu apagar a capoeira, que sobreviveu nas sombras até ressurgir, décadas depois, como símbolo da cultura brasileira.
As maltas do Rio no século XIX são um capítulo complexo e violento da história da capoeira. Elas mostram que a arte sempre esteve ligada à vida real das ruas, com suas contradições, suas lutas e sua inegável força.
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