A Zona Hadal — a 11 quilômetros de profundidade, onde a pressão é 1.100 vezes a da superfície, e ainda assim existe vida

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Imagine descer. E descer. E continuar descendo. A luz desaparece nos primeiros 200 metros. Aos mil metros, a pressão já equivale a um elefante equilibrado sobre uma moeda. Aos quatro mil metros, o abissal. E então… o hadal. O reino de Hades debaixo d’água. 6.000 a 11.000 metros de profundidade, onde a pressão ultrapassa mil atmosferas — o equivalente a 50 jatos Boeing 747 empilhados sobre o seu peito. E mesmo aqui, na fronteira do impossível, criaturas vivem.

A Zona Hadal — a 11 quilômetros de profundidade, onde a pressão é 1.100 vezes a da superfície, e ainda assim existe vida
Wikimedia Commons — CC BY 3.0, autor Gerringer, M.E., Linley, T.D., Jamieson, A.J., Goetze, E. & Drazen, J.C. 2017. Pseudoliparis swirei sp. nov.: A newly-discovered hadal snailfish (Scorpaeniformes: Liparidae) from the Mariana Trench. Zootaxa 4358(1): 161–177

A Fossa das Marianas

O ponto mais profundo conhecido dos oceanos é a Challenger Deep, na Fossa das Marianas, a 10.994 metros. Em 1960, Don Walsh e Jacques Piccard desceram até lá no batiscafo Trieste. Passaram 20 minutos no fundo. Viram um peixe — um linguado — olhando para eles através da vigia. A ciência da época acreditava que vida complexa não poderia existir naquelas pressões. O peixe discordava.

Em 2012, James Cameron repetiu o feito no Deepsea Challenger, um submarino que ele mesmo projetou — vertical, estreito, feito para cortar a água como um torpedo. Passou três horas coletando amostras na Challenger Deep. O que ele encontrou reescreveu a biologia marinha.

Criaturas que desafiam a física

O peixe-caracol-hadal (Pseudoliparis swirei) é o vertebrado que vive mais fundo que se conhece, a 8.178 metros. Sua estrutura corporal é um milagre evolutivo: praticamente sem esqueleto rígido, com ossos parcialmente substituídos por cartilagem flexível. Peixes de superfície implodem se descerem além de algumas centenas de metros. A pressão literalmente esmaga as moléculas — proteínas se desnaturam, membranas celulares colapsam.

Os habitantes da zona hadal desenvolveram adaptações que beiram o sobrenatural. O peixe-diabo-negro (Melanocetus), que vive na zona batipelágica (200 a 2.000 metros — não hadal), tem uma isca bioluminescente pendurada na frente da boca — uma lanterna feita de bactérias que brilham no escuro. O peixe-víbora tem dentes tão longos que não cabem na própria boca, e articulações que permitem engolir presas maiores que seu corpo. Em um ambiente onde alimento é tão raro quanto luz solar, eficiência absoluta é a única moeda.

O mais extraordinário talvez seja o que NÃO sabemos. Estimativas sugerem que menos de 0,05% do fundo oceânico foi explorado por humanos. Fomos à Lua seis vezes. À Fossa das Marianas, apenas quatro. O império de Hades ainda guarda seus segredos.

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