A Roda Que Girava Dentro da Roda
No quinto ano do exílio, à margem de um rio que não era o seu, um sacerdote viu o céu se abrir. O ano, segundo os cálculos mais aceitos, era 593 antes da era comum; o lugar, o rio Quebar, na Babilônia; o homem, Ezequiel, da linhagem sacerdotal. O que ele viu — e descreveu com uma precisão que nenhum outro profeta empregou para falar de Deus — atravessou vinte e seis séculos sem perder nada de sua estranheza.
Há textos que se leem; há textos que se atravessam. O primeiro capítulo de Ezequiel é destes últimos: uma nuvem de fogo vinda do norte, quatro seres vivos com quatro rostos, quatro asas, pernas retas e pés de metal polido e, junto a eles, rodas — rodas dentro de rodas, cheias de olhos ao redor, que se moviam sem se virar, porque o espírito das criaturas estava nas rodas. Por cima, um firmamento como cristal; por cima do firmamento, um trono de safira; sobre o trono, uma figura com o brilho do bronze incandescente. A mística judaica deu a essa visão um nome: Merkabah, o carro. E tratou-a, durante séculos, como o conhecimento mais perigoso que existia.
O que sabemos
Sabemos, primeiro, o que o texto diz. O relato de Ezequiel é obsessivamente técnico: materiais, direções, alturas, sons, movimentos. As rodas eram como o brilho de crisólito; havia uma roda dentro da outra; suas bordas eram altas e terríveis, cheias de olhos ao redor. O som das asas era como o ruído de muitas águas, como a voz do Todo-Poderoso, como o tumulto de um exército. Nada, em toda a Bíblia, descreve o trono divino com tamanha precisão mecânica — nem antes, nem depois.
Sabemos, também, o que essa visão gerou. Em torno do capítulo primeiro de Ezequiel nasceu a mais antiga mística documentada do judaísmo, a tradição da Merkabah: a Mishná, no tratado Hagigá, proíbe ensinar o relato do Carro a um só discípulo; a literatura dos Hecalot, os palácios celestes, descreve ascensões em que o místico atravessa portais guardados para contemplar o Trono. Ezequiel não fundou apenas uma escola: fundou uma maneira de olhar para o céu como quem lê um diagrama.
E sabemos, por fim, que no século XX um engenheiro de verdade se debruçou sobre o capítulo com ferramentas de engenheiro. Josef F. Blumrich, chefe do setor de projetos do Marshall Space Flight Center da NASA, começou a estudar o texto para desmontar as leituras ufológicas — e terminou escrevendo um livro, As Naves Espaciais de Ezequiel, publicado em 1974, no qual as rodas viram trens de pouso, as criaturas viram motores e o conjunto inteiro vira uma nave. O cético converteu-se em testemunha; o testemunho, em especificação.
O que não sabemos
Não sabemos o que Ezequiel viu — e, mais grave, não sabemos se ele mesmo sabia. Sua linguagem, no momento culminante, recua: ‘esta era a aparência da semelhança da glória do Senhor’. Aparência; semelhança. O profeta, que acabara de medir rodas e contar asas, recusa-se a nomear a coisa em si. Essa hesitação é a marca do testemunho autêntico: quem inventa, afirma; quem viu, hesita.
Não sabemos, tampouco, o que eram os olhos nas rodas. Sensores? Estrelas? O espírito das criaturas dentro das rodas sugere algo que nenhuma leitura alegórica resolve com conforto: um sistema em que inteligência e mecanismo não se distinguem. E não sabemos por que a visão insiste em números — alturas, distâncias, materiais — se o que se queria transmitir era apenas a glória de Deus. A glória, na Bíblia, raramente vem acompanhada de cotas.
O que está em jogo
O que está em jogo é a fronteira entre o sagrado e o técnico. Se Ezequiel descreveu uma máquina, então o encontro de Quebar não pertence apenas à história da religião: pertence à história da tecnologia — e a Bíblia se torna, entre outras coisas, um relatório de encontro com algo que voava. Se descreveu apenas uma visão, resta explicar por que a visão fala a língua exata da engenharia: eixos, aros, cubos, alturas, velocidades, materiais. Em ambos os casos, uma certeza incômoda permanece: os antigos não careciam de precisão — careciam apenas de vocabulário. Ou talvez nós é que o tenhamos perdido.
Quando Blumrich encerrou seu livro, escreveu que, se os fatos não cabem na explicação, talvez seja a explicação que precise mudar. Vinte e seis séculos depois da visão, ainda não decidimos se a roda que girava dentro da roda era um trono, uma nave ou um espelho. E talvez a pergunta verdadeira não seja o que Ezequiel viu, mas o que nos impede de ver o mesmo céu — e de admitir que, sobre o Quebar, algo esteve de fato lá em cima, girando, coberto de olhos, esperando que alguém tivesse a coragem de dar o nome certo.
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