Existe um número que assombra os físicos há décadas. Ele descreve a intensidade da força forte — a força que mantém prótons e nêutrons unidos no núcleo atômico. Se esse número fosse 0,5% maior, o hidrogênio não existiria. Sem hidrogênio, não há água. Não há estrelas. Não há vida. Se fosse 0,5% menor, os núcleos atômicos não se formariam. Sem núcleos, não há átomos. Não há química. Não há nada. Esse número — e muitos outros como ele — parece ter sido ajustado com uma precisão absurda para que o universo fosse capaz de produzir vida. Os físicos chamam isso de ajuste fino. O que fazer com essa informação é uma das perguntas mais perigosas da ciência.
Não é um número. São pelo menos vinte. A constante cosmológica — a densidade de energia do vácuo que acelera a expansão do universo — é 10¹²⁰ vezes menor do que a física de partículas prevê. Se fosse um pouco maior, o universo teria se expandido rápido demais para que galáxias se formassem. Um pouco menor, teria colapsado sobre si mesmo. A massa do elétron, a intensidade da força eletromagnética, a razão entre as massas do próton e do nêutron — todas parecem “calibradas”. Mude qualquer uma em 1% e a vida se torna impossível neste universo.
Diante disso, a ciência oferece três respostas. Nenhuma é confortável. A primeira: foi sorte. Entre todos os valores possíveis, calhou de cair nos certos. Essa é a resposta correta segundo a interpretação estatística pura — mas ela não satisfaz ninguém. A segunda: o princípio antrópico. Se o universo não fosse capaz de gerar vida, não haveria ninguém aqui para se perguntar por quê. O fato de estarmos fazendo a pergunta implica que o universo tem as constantes certas — porque só num universo assim a pergunta poderia ser feita. É logicamente impecável e profundamente frustrante.
A terceira resposta é a mais vertiginosa: o multiverso. Se existem infinitos universos, cada um com constantes físicas aleatórias, então pelo menos um — o nosso — teria os números certos por pura probabilidade. Não haveria “ajuste”, apenas uma loteria cósmica onde ganhamos porque, entre infinitos bilhetes, pelo menos um tinha que ser premiado. O multiverso resolve o problema do ajuste fino elegantemente — mas ao custo de postular algo que talvez nunca possamos observar ou testar. É ciência ou é filosofia usando jaleco?
Nenhuma das respostas é definitiva. E talvez a melhor postura ao encarar o ajuste fino não seja escolher uma, mas sentar-se com o desconforto da pergunta. Porque no fundo, o que ela realmente pergunta é: estamos aqui por acaso ou por algum motivo? A ciência não pode — ainda — responder a essa pergunta. Mas o fato de podermos formulá-la já é, por si só, uma coincidência notável.

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