Janeiro ou fevereiro, dependendo do calendário tâmil. Kuala Lumpur, Malásia. As Cavernas de Batu — um complexo de templos hindus encravado em montanhas calcárias, com 272 degraus subindo até o altar principal. Milhares de devotos sobem esses degraus. Muitos deles com ganchos de metal enfiados nas costas, no peito, nos braços e nas bochechas. Puxando carruagens pesadas presas por cordas a esses mesmos ganchos. Alguns com lanças atravessando as bochechas. Outros carregando estruturas de madeira de dezenas de quilos — os kavadis — apoiadas apenas nos ombros e sustentadas por dezenas de piercings.
Eles não sangram. A pele é perfurada com agulhas grossas e ganchos. Nenhuma gota de sangue. Os devotos entram em transe antes das perfurações. Alguns afirmam estar em comunicação direta com o deus Murugan. Outros dizem simplesmente que a fé supera a biologia.
O que a ciência diz
O fenômeno do Thaipusam intriga fisiologistas há décadas. Como alguém perde tanta integridade tecidual sem hemorragia significativa? A explicação mais aceita envolve vasoconstrição extrema induzida pelo estado de transe: o sistema nervoso simpático contrai os vasos sanguíneos periféricos, redirecionando o fluxo sanguíneo para os órgãos vitais. As perfurações acontecem em áreas onde a circulação periférica está minimizada. O resultado: furos sem sangramento visível.
Mas isso não explica a ausência de dor. Os devotos relatam sensação de calor, pressão ou “formigamento” — não dor aguda. Estados alterados de consciência podem liberar endorfinas e encefalinas em quantidades massivas, os opioides naturais do cérebro. A combinação de transe religioso, música rítmica, multidão e privação de sono (muitos devotos jejuam e meditam por dias antes) cria um coquetel neuroquímico que transforma o que seria tortura em… êxtase.
As feridas cicatrizam. Os devotos voltam para casa. Na maioria dos casos, as perfurações não deixam cicatrizes visíveis. O corpo se repara com uma eficiência que os hospitais não conseguem replicar. O Thaipusam não é um espetáculo de autoflagelação. É uma janela para o que o corpo humano pode fazer quando o cérebro decide que a biologia é negociável.

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