Ornitorrinco — o mamífero que bota ovo, tem bico de pato, veneno e 10 cromossomos sexuais

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Voz do navegador · episódio narrado na Fase 2

Quando os primeiros naturalistas europeus receberam um ornitorrinco empalhado da Austrália em 1799, acharam que era uma farsa. Um bico de pato costurado no corpo de um castor, com patas de lontra — claramente montado por um taxidermista brincalhão. George Shaw, do Museu Britânico, examinou a pele com tesoura procurando as costuras. Não havia costuras. O ornitorrinco era real.

E a realidade era mais absurda que qualquer pegadinha. O ornitorrinco é um mamífero — pelas glândulas mamárias (embora não tenha mamilos: o leite “sua” pela pele). Mas bota ovos. Tem bico de borracha sensível a eletrorrecepção — ele detecta os campos elétricos gerados pelos músculos de suas presas, caçando de olhos fechados debaixo d’água. Os machos têm um esporão venenoso nas patas traseiras, capaz de causar dor excruciante em humanos (e não há antídoto eficaz — a dor dura semanas e resiste a morfina). E seu genoma tem 10 cromossomos sexuais. Humanos têm 2 (XX/XY).

O monotremado: fóssil vivo de 200 milhões de anos

Ornitorrincos e equidnas são os únicos monotremados sobreviventes — mamíferos que botam ovos. Pertencem a uma linhagem que se separou dos outros mamíferos há cerca de 200 milhões de anos, no Jurássico. Isso significa que o último ancestral comum entre você e um ornitorrinco é um animal que viveu quando os dinossauros ainda dominavam a Terra. O ornitorrinco não é um “mamífero primitivo” no sentido pejorativo — é um sobrevivente de um caminho evolutivo alternativo que, por 200 milhões de anos, funcionou perfeitamente.

O veneno do ornitorrinco é um coquetel de 83 toxinas diferentes, muitas delas únicas — não encontradas em nenhuma outra espécie. O gene que produz uma dessas toxinas é notavelmente similar ao gene que produz defensinas em répteis, o que faz sentido evolutivo (monotremados são o elo entre répteis e mamíferos). Mas o fato de 83 toxinas terem evoluído independentemente num mamífero que bota ovo, detecta eletricidade e tem 10 cromossomos sexuais… é como se a evolução tivesse decidido fazer um “desafio de design”: crie um animal que viole todas as regras.

O bico que “vê” eletricidade

O bico do ornitorrinco contém cerca de 40.000 eletrorreceptores e 60.000 mecanorreceptores distribuídos em listras. Quando ele mergulha de olhos, ouvidos e narinas fechados, seu bico detecta as microcorrentes elétricas geradas por camarões e insetos aquáticos. É o único mamífero conhecido com eletrorrecepção ativa. Tubarões têm algo similar. Ornitorrincos pegaram a mesma ideia, através de evolução convergente, e a refinaram num bico de borracha embutido num corpo de castor que bota ovo. Tudo isso é verdade.