Poucos capoeiristas combinaram tão bem a tradição da roda com a reflexão intelectual quanto Mestre Acordeon. Nascido Ubirajara Guimarães Almeida, ele saiu do ABC paulista para se tornar um dos principais responsáveis pela difusão da capoeira nos Estados Unidos, além de autor de livros fundamentais para a compreensão da arte. Sua trajetória é um exemplo de como a capoeira pode ser, ao mesmo tempo, raiz e ponte entre culturas.
Origens e formação
Mestre Acordeon nasceu em 1943, em Salvador, na Bahia, e cresceu na região do Grande ABC, em São Paulo. Foi aluno de Mestre Bimba, o criador da capoeira regional, com quem aprendeu os fundamentos da arte e, sobretudo, o orgulho de ser capoeirista. O apelido “Acordeon” remete, segundo relatos, à sua agilidade e à sua capacidade de se movimentar com fluidez, como um acordeom que se abre e se fecha.
A formação com Bimba marcou profundamente sua visão da capoeira. Para Acordeon, a capoeira era mais do que luta ou dança: era uma filosofia de vida, um caminho de autoconhecimento e de transformação social. Essa perspectiva o acompanharia por toda a sua trajetória.
A filosofia da capoeira como caminho
Uma das marcas do ensinamento de Acordeon é a ideia de que a capoeira é um caminho de vida, e não apenas um esporte. Ele costuma relacionar os desafios da roda aos desafios da existência: a paciência para aprender, a coragem para enfrentar o outro e a humildade para reconhecer os próprios limites. Nessa visão, cada treino é também um exercício de caráter.
Essa dimensão filosófica aproxima Acordeon dos grandes mestres do passado, que viam na capoeira um instrumento de formação humana. Ao transmitir esses valores, ele ajudou a elevar a capoeira de simples prática corporal a patrimônio de sabedoria, respeitado também fora dos círculos de praticantes.
A ida para os Estados Unidos
No final dos anos 1970, Mestre Acordeon se mudou para os Estados Unidos, estabelecendo-se na região da Baía de São Francisco, na Califórnia. Lá, fundou a United Capoeira Association e, posteriormente, a Capoeira Arts Foundation, sediada em Berkeley, que se tornou um centro de referência para o ensino da capoeira no país.
Na Califórnia, Acordeon encontrou um público ávido por conhecer a arte brasileira. Ele soube traduzir a capoeira para uma nova realidade cultural, sem abrir mão de seus fundamentos. Sua pedagogia, marcada pela exigência técnica e pela sensibilidade artística, formou gerações de capoeiristas americanos e de outras nacionalidades.
O impacto na cultura americana
O trabalho de Acordeon na Califórnia teve um alcance que extrapolou as academias. A capoeira passou a fazer parte da cena cultural de Berkeley e de São Francisco, aparecendo em festivais, escolas e universidades. O mestre se tornou uma referência para artistas, pesquisadores e estudantes interessados na cultura brasileira e na diáspora africana nas Américas.
Essa inserção contribuiu para que a capoeira fosse reconhecida nos Estados Unidos como expressão cultural séria, e não apenas como curiosidade exótica. Ao formar mestres americanos e difundir a filosofia da arte, Acordeon ajudou a enraizar a capoeira em solo estrangeiro, garantindo sua continuidade muito além da sua própria geração.
Autor e pensador
Além de mestre, Acordeon se destacou como autor. Seus livros e registros escritos ajudaram a sistematizar o conhecimento da capoeira, contribuindo para que a arte fosse estudada com seriedade em universidades e centros culturais. Ele escreveu sobre a história, a filosofia e a prática da capoeira, deixando um legado intelectual raro no universo da arte.
Seu trabalho aproximou a capoeira do meio acadêmico, mostrando que a tradição oral e o pensamento crítico podem caminhar juntos. Essa contribuição foi decisiva para que a capoeira ganhasse reconhecimento como patrimônio cultural, e não apenas como prática esportiva.
Legado duradouro
Mestre Acordeon segue ativo na difusão da capoeira, participando de eventos, formando mestres e inspirando novas gerações. Sua trajetória do Brasil aos Estados Unidos é um testemunho da força da capoeira como linguagem universal, capaz de atravessar fronteiras e unir pessoas de origens distintas.
A história de Mestre Acordeon mostra que a capoeira não se limita à roda. Ela é também pensamento, arte e educação. E mestres como ele são a ponte que conecta a tradição dos terreiros à cultura global contemporânea.
Ao lado do ensino, a música sempre teve papel central na trajetória de Acordeon. Ele participou de gravações e espetáculos que levaram os sons do berimbau e as cantigas de capoeira a plateias que jamais haviam pisado em uma roda. Sua atuação ajudou a divulgar a musicalidade da capoeira como expressão artística autônoma, digna dos palcos.
Esse trabalho de difusão se somou à sua atuação como formador, criando um movimento contínuo de expansão da capoeira nos Estados Unidos e no mundo. A cada apresentação, a cada aula e a cada página escrita, Acordeon reafirmou que a capoeira é uma arte completa, capaz de dialogar com qualquer cultura sem perder a própria essência.
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