Os Anjos Que Soavam Como Máquinas

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Os Anjos Que Soavam Como Máquinas

Há um instante, no capítulo sexto de Isaías, em que o templo se comporta como um mecanismo. As colunas das portas tremem até o umbral; a casa inteira se enche de fumaça; e uma voz, vinda de algum lugar acima dos seres alados, pergunta: ‘A quem enviarei?’ Como se o edifício sagrado fosse, naquele momento, a caixa acústica de algo maior — ou o casco de uma máquina que acabara de ligar.

Os seres que cercam o trono chamam-se serafins. Têm seis asas: com duas cobrem o rosto, com duas cobrem os pés, com duas voam. E gritam, uns aos outros, sem parar: ‘Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos’. A palavra serafim vem de uma raiz que significa queimar — são os ardentes, parentes das serpentes de fogo do deserto. Mas a cena não é de fogo apenas: é de movimento preciso, coordenado, quase mecânico, como o de um motor em marcha lenta.

O que sabemos

Sabemos que a descrição dos seres celestes, na Bíblia, é consistentemente construída com o vocabulário da engenharia de seu tempo — e de nenhum outro. Os querubins que Salomão mandou esculpir para o Santo dos Santos, narrados em 1 Reis 6, eram duas figuras de madeira de oliveira, dez côvados de altura, revestidas de ouro, com asas de cinco côvados que se tocavam no centro do santuário: uma máquina de vigília instalada na sala mais vedada do reino, no Templo de Salomão.

Sabemos, também, o que os textos dizem sobre o som. Em Ezequiel 1, o ruído das asas é como o ruído de muitas águas, como a voz do Todo-Poderoso, como o tumulto de um exército; em Ezequiel 10, o som dos querubins ouvia-se até o pátio exterior, como a voz do Deus Todo-Poderoso quando ele fala. E em Daniel 7, o trono do Ancião de Dias é chamas de fogo, com rodas de fogo ardente — a imagem reaparece: trono, fogo, rodas, som. A iconografia celeste da Bíblia não é estática: ela zune.

E sabemos que a tradição tratou os serafins e querubins como ordem e hierarquia — anjos, não máquinas. Mas a pergunta que o texto não responde é por que a hierarquia angélica, em seus momentos mais altos, é descrita com detalhes que não se encontram em nenhum outro anjo: asas que cobrem, rodas que giram, metal que reluz, som que abala estruturas.

O que não sabemos

Não sabemos o que eram, materialmente, essas criaturas. As leituras modernas, de Erich von Däniken e seus herdeiros, enxergam aeronaves nas asas que cobrem — trens de pouso?, no metal polido — fuselagem? — e nos ruídos de exército, motores. A leitura litúrgica enxerga vestes, posturas e cânticos: asas que cobrem o rosto seriam humildade; asas que cobrem os pés, reverência; asas que voam, prontidão. Ambas as leituras são coerentes; nenhuma é verificável. O texto, como um bom oráculo, sustenta as duas.

Não sabemos, tampouco, por que a acústica aparece com tanto relevo. Um templo não treme por causa de um coral. A fumaça que enche a casa, as colunas que se movem, a voz que pergunta — há nessa cena um excesso de fenômenos físicos para uma simples teofania literária. É como se Isaías estivesse, sem saber, descrevendo a vibração de uma estrutura submetida a algo que não tinha nome em sua língua.

O que está em jogo

O que está em jogo é a nossa definição de anjo. Se os seres celestes são apenas mensageiros espirituais, a cena de Isaías 6 é um poema extraordinário. Mas se as descrições são testemunho — se aquelas asas, aquelas rodas, aquele som de exército eram fenômenos reais —, então a distinção entre anjo e máquina, entre liturgia e tecnologia, desmorona. E a pergunta de Isaías ganha um peso novo: quem enviaremos para falar do que vimos?

Há, ainda, o detalhe do carvão aceso: um dos serafins voa até o altar, toma uma brasa com uma tenaz e toca os lábios do profeta — ‘a tua iniquidade foi tirada, e o teu pecado, expiado’. Rito de purificação, dizem os teólogos. Procedimento de descontaminação, poderiam dizer os engenheiros. A mesma cena, duas linguagens, nenhum ponto de contato — e um único objeto: fogo que toca a boca e transforma quem fala.

Quando o templo tremeu e a fumaça subiu, Isaías não perguntou o que eram aquelas criaturas. Perguntou quem enviaria. Talvez a pergunta certa, para nós, seja a mesma, com uma inversão: se os anjos soavam como máquinas, o que isso diz sobre as máquinas que hoje nos cercam — e sobre o que estamos, sem saber, tentando construir à imagem do que foi visto no templo? E quando o nosso próprio mundo tremer até os umbrais, haverá entre nós alguém disposto a responder: ‘Eis-me aqui, envia-me a mim’?

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