Operação Prato 1977 — O Que a Aeronáutica Realmente Documentou em Colares

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O pânico na Ilha de Colares

Segundo semestre de 1977. A Ilha de Colares, município a 90 quilômetros de Belém, no Pará, era uma comunidade ribeirinha de pescadores, coletores de caranguejo e agricultores de subsistência — cerca de 10 mil habitantes espalhados por vilarejos acessíveis principalmente por barco. A vida seguia o ritmo das marés. Até que, entre agosto e novembro daquele ano, a ilha inteira mergulhou no que os moradores descreveram como um estado de terror coletivo.

Os relatos começaram tímidos, depois se multiplicaram. Pessoas contavam que luzes coloridas — vermelhas, azuis, verdes, alaranjadas — desciam do céu à noite, moviam-se em silêncio sobre os rios e igarapés, e se aproximavam das casas. Às vezes eram esferas luminosas flutuando a poucos metros do chão. Outras vezes, objetos cilíndricos ou ovais com uma espécie de janela ou abertura na base, de onde saía um feixe de luz concentrado. Em muitas ocasiões, as testemunhas relatavam que esses feixes de luz atingiam diretamente as pessoas — causando sensação de calor intenso, queimaduras superficiais, paralisia temporária, vertigem, náusea e fraqueza extrema. Os moradores chamaram o fenômeno de “chupa-chupa”.

Não era folclore. As marcas nos corpos eram reais. Dois pequenos furos paralelos, como agulhas, frequentemente no pescoço, ombros, peito ou braços. Vermelhidão. Sensação de sucção. Entre 50 e 80 pessoas teriam sido afetadas, algumas a ponto de ficar acamadas por dias. Os médicos dos postos de saúde da região atenderam as vítimas, mas não tinham protocolo para o que viam — as lesões não correspondiam a picadas de inseto, queimaduras comuns ou doenças dermatológicas conhecidas na região.

Diante da situação — relatos generalizados, vítimas documentadas, pânico entre a população —, o prefeito de Vigia (município ao qual Colares pertence) solicitou ajuda às autoridades estaduais. A repercussão chegou a Brasília. E a Força Aérea Brasileira, por meio do I COMAR (Primeiro Comando Aéreo Regional), com sede em Belém, decidiu investigar.

A chegada dos militares

Em setembro de 1977, uma equipe da FAB desembarcou em Colares. A missão recebeu o nome oficial de “Operação Prato” — uma referência ao formato dos objetos descritos pelas testemunhas. A equipe era liderada pelo Capitão Uyrangê Bolívar Soares Nogueira de Hollanda Lima, oficial de inteligência do I COMAR. Acompanhavam-no sargentos, fotógrafos militares, equipamentos de medição, câmeras fotográficas e filmadoras de 16 mm.

O capitão Hollanda — como ficou conhecido — estabeleceu um posto de observação na região e iniciou uma investigação metódica. Sua equipe entrevistou dezenas de moradores, documentou as marcas físicas nas vítimas, mapeou os locais de avistamento, e montou vigílias noturnas com equipamento fotográfico e cinematográfico. O resultado foi um relatório de mais de 500 páginas, complementado por centenas de fotografias e horas de filmagem em película.

O relatório — também chamado de “Dossiê Operação Prato” — foi classificado como reservado pela Aeronáutica e permaneceu inacessível ao público por décadas. Mas algumas informações vazaram ao longo dos anos, por meio de militares envolvidos na operação que falaram “off the record”, jornalistas que tiveram acesso parcial aos documentos e ufólogos que reconstruíram os eventos com base em entrevistas às testemunhas.

As fotos que a FAB tirou

Um dos aspectos mais extraordinários da Operação Prato é que a Força Aérea Brasileira produziu evidências fotográficas oficiais do fenômeno. As fotos — algumas em preto e branco, outras em cores — mostram objetos luminosos no céu noturno, frequentemente com formato ovalado ou discoidal, emitindo luz própria. Não são pontos indistintos. São formas nítidas, com bordas definidas, frequentemente descritas como “uma lua achatada emitindo luzes coloridas”.

Diversas fotografias foram divulgadas ao longo dos anos, inclusive em revistas de grande circulação como a extinta “Realidade” e, posteriormente, em programas de televisão e documentários. Em 2009, o Arquivo Nacional recebeu da Aeronáutica uma remessa de documentos do extinto “Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (SIOANI)”, e entre eles estavam registros relacionados à Operação Prato. Em 2013, a FAB liberou mais alguns documentos — incluindo as famosas fotos.

Nenhuma das imagens, até hoje, foi conclusivamente provada como fraude ou como fenômeno convencional mal interpretado. O que torna o caso ainda mais intrigante é a fonte: não foram ufólogos entusiastas que fotografaram aquilo. Foram sargentos e fotógrafos da Força Aérea Brasileira, em missão oficial, com equipamento militar, seguindo protocolos de documentação.

O capitão Hollanda — a testemunha central

Por anos, o capitão Hollanda manteve silêncio sobre a operação. Aposentou-se como coronel. Mudou-se para o Rio de Janeiro. E então, em 1997 — exatos 20 anos depois —, concedeu uma longa entrevista aos ufólogos Ademar José Gevaerd e Marco Antônio Petit, da revista UFO. Foi a primeira vez que um comandante militar brasileiro descreveu em detalhes o que sua equipe testemunhou.

Hollanda confirmou que ele próprio e seus homens presenciaram os fenômenos. Descreveu objetos que se aproximavam lentamente, emitindo feixes de luz que “pareciam sondar” a área ao redor. Em um dos incidentes mais perturbadores que relatou, um sargento foi atingido por um desses feixes e sentiu uma paralisia que o deixou imóvel por vários segundos, consciente mas incapaz de se mover. “Não era lenda, não era imaginação, não era histeria coletiva”, afirmou Hollanda. “Eu vi com meus próprios olhos. Meus homens viram.”

Hollanda morreu em 1997, poucos meses após a publicação da entrevista. A coincidência temporal entre a entrevista e sua morte alimentou teorias conspiratórias que nunca foram comprovadas — ele tinha problemas cardíacos preexistentes. Mas o fato permanece: o comandante da única missão militar brasileira oficialmente dedicada a investigar OVNIs confirmou, sob registro, tudo que os moradores de Colares diziam.

O que realmente aconteceu?

Explicações alternativas foram propostas. A mais recorrente atribui os fenômenos a fenômenos naturais: fogo-fátuo (gases de pântano em combustão espontânea), raios globulares (um fenômeno atmosférico raro), ou satélites e corpos celestes confundidos com objetos próximos. O problema com essas explicações é que nenhuma delas explica os ferimentos físicos nas vítimas, a consistência nos formatos descritos (não apenas luzes, mas objetos estruturados com janelas e feixes direcionais), e o fato de que os militares destacados para investigar também testemunharam — e fotografaram — os mesmos fenômenos.

A Operação Prato permanece como o episódio em que o Estado brasileiro levou OVNIs suficientemente a sério para mobilizar uma equipe militar durante meses, produzir centenas de páginas de documentação, e depois trancar tudo num cofre por décadas. A pergunta que fica não é se algo aconteceu em Colares em 1977 — é por que a documentação completa ainda não foi totalmente divulgada.

Fontes

  • Documentos da Operação Prato — Arquivo Nacional, Fundo SIOANI (2009 e 2013)
  • Entrevista do Coronel Uyrangê Hollanda à Revista UFO (1997, edição especial)
  • Gevaerd, Ademar José — “Operação Prato: O Dossiê” — Revista UFO
  • Petit, Marco Antônio — investigação jornalística sobre o caso Colares
  • Arquivos do I COMAR — relatórios internos da FAB sobre o incidente

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