Autor: Luiz Nobre

  • Camila Farani: a investidora-anjo que mais aposta em startups no Brasil

    Camila Farani: a investidora-anjo que mais aposta em startups no Brasil

    Se você assiste Shark Tank Brasil, já conhece Camila Farani — a investidora que faz perguntas afiadas, não se impressiona com PowerPoint bonito e tem uma intuição quase assustadora sobre quais negócios vão funcionar. Mas o que muita gente não sabe é que por trás da persona de TV existe uma das investidoras-anjo mais prolíficas do Brasil, com um portfólio de mais de 60 startups e múltiplos exits bem-sucedidos.

    Do franchising ao venture capital

    Camila veio do mundo corporativo tradicional — administradora de empresas, especialista em franchising e expansão de negócios. Passou anos no mercado de alimentação e varejo antes de migrar para investimentos em tecnologia. Essa experiência “old school” é justamente o diferencial dela: enquanto muitos investidores tech só olham métricas de produto, Camila entende operação, margem, logística — o mundo real que faz um negócio sobreviver depois da rodada de investimento.

    Ela é fundadora da G2 Capital e da Farani Ventures, além de ser uma voz ativa sobre a necessidade de diversidade no ecossistema de investimentos. Em 2025, ela cofundou a Bossanova Angels, uma rede de investimento anjo focada em apoiar founders mulheres e sub-representados. Camila também criou o movimento “Mais Mulheres Empreendedoras” e já mentorou centenas de startups em estágio inicial.

    Com mais de R$100 milhões investidos em startups ao longo da carreira, ela representa um perfil raro no mercado brasileiro: investidora serial que entende tanto de tecnologia quanto de negócio tradicional, que aparece na TV mas também mergulha nos dados, e que usa a visibilidade para abrir portas para quem não teria acesso ao ecossistema de investimentos.

  • Tardígrados — a criatura que sobrevive ao vácuo do espaço, à radiação e a 30 anos sem água

    Tardígrados — a criatura que sobrevive ao vácuo do espaço, à radiação e a 30 anos sem água

    O animal mais resistente do planeta não é grande. Não tem garras, dentes ou veneno. Mede meio milímetro. é gordinho, tem oito patas atarracadas e um focinho que lhe rendeu o apelido de “urso d’água”. Seu nome científico é Tardigrada. E é, sem exagero, a coisa viva mais difícil de matar já descoberta.

    Tardígrados — a criatura que sobrevive ao vácuo do espaço, à radiação e a 30 anos sem água
    DSparrow14 — CC BY-SA 4.0 (via Wikimedia Commons)

    Tardígrados sobrevivem a temperaturas de -272°C (quase zero absoluto) até 150°C. Sobrevivem a pressões seis vezes maiores que as da Fossa das Marianas. Sobrevivem a doses de radiação ionizante centenas de vezes maiores do que a dose letal para humanos. Sobrevivem é desidratação completa por até 30 anos — e quando recebem água, voltam é vida em minutos. E, em 2007, foram enviados ao espaço — expostos diretamente ao vácuo e é radiação solar sem nenhuma proteção — e sobreviveram. Não “a maioria”. A maioria voltou viva e fértil.

    São as únicas criaturas conhecidas que sobreviveram é exposição direta ao ambiente espacial.

    O segredo: criptobiose

    O truque do tardígrado é entrar num estado chamado criptobiose. Quando o ambiente fica hostil, ele expulsa quase toda a água do corpo (passando de 85% para 3% de hidratação), encolhe, dobra as patas para dentro, e se transforma numa bolinha inerte chamada “tonel”. Nesse estado, seu metabolismo cai para 0,01% do normal — praticamente zero. Ele não está morto. Está suspenso. é como se apertasse um botão de pausa na vida.

    Nesse estado de tonel, o tardígrado produz proteínas especiais que encapsulam seu DNA, protegendo-o contra radiação e dessecação. Ele também produz trealose — um açúcar que “vitrifica” as membranas celulares, como se as transformasse em vidro biológico. Quando a água retorna, o vidro derrete e a vida recomeça.

    Panspermia: o elefante (minúsculo) na sala

    Se tardígrados podem sobreviver ao espaço, isso significa que a vida pode viajar entre planetas. Essa à a hipótese da panspermia: a ideia de que a vida na Terra pode ter vindo de outro lugar — esporos, bactérias ou tardígrados viajando em asteroides ou cometas, sobrevivendo ao vácuo e é radiação, e colonizando novos mundos. Ou o inverso: a Terra pode ter contaminado outros planetas com vida, através de rochas ejetadas por impactos de meteoritos.

    Em 2019, a sonda israelense Beresheet, que carregava milhares de tardígrados, colidiu com a Lua. Os tardígrados podem ter sobrevivido ao impacto. Nesse caso, atualmente existem tardígrados na Lua — os primeiros seres vivos terrestres a colonizar outro corpo celeste. Não por escolha. Por acidente. Mas ainda assim: estamos espalhando vida pelo cosmos sem nem perceber.

  • Pedro Franceschi: o outro brasileiro que vale R$15 bilhões com cartão PJ

    Pedro Franceschi: o outro brasileiro que vale R$15 bilhões com cartão PJ

    Você já ouviu falar de Henrique Dubugras, o brasileiro de 26 anos que vale bilhões com a Brex. Mas ele não fez isso sozinho. Pedro Franceschi é o cofundador — e a metade mais técnica da dupla. Enquanto Henrique cuidava de negócios e captação, Pedro construía a arquitetura do produto que iria desafiar o sistema bancário americano.

    O nerd que hackeou o sistema financeiro

    Pedro começou a programar com 7 anos — e não era HTML básico, era C++. Aos 12, hackeou o iPhone e fez jailbreak. Aos 16, era o CTO da Pagar.me, processando pagamentos de milhares de empresas brasileiras. Quando a Pagar.me foi vendida, Pedro tinha adquirido um conhecimento raro: como construir infraestrutura financeira do zero, com segurança de nível bancário, sendo adolescente.

    No Vale do Silício, Pedro e Henrique passaram pela Y Combinator com uma ideia de realidade virtual que flopou. Foi nesse “fracasso” que identificaram a dor real: imigrantes sem crédito não conseguiam cartão corporativo nos EUA. Pedro construiu o sistema que avalia risco em tempo real, conectando-se diretamente às contas bancárias das empresas — uma engenharia financeira complexa que exigia integração com dezenas de bancos e processadoras.

    Hoje, Pedro é CTO da Brex, supervisionando uma equipe de centenas de engenheiros. Ele tem uma filosofia clara sobre liderança técnica: “O CTO não pode parar de codar.” Diferente de muitos founders que viram gestores puros, Pedro ainda mergulha no código. E num mundo onde a tecnologia é o produto, ter um CTO que realmente entende o que está sendo construído é uma vantagem competitiva brutal.

  • O Polvo Que Lê Mentes — a inteligência alienígena que vive nos oceanos da Terra

    O Polvo Que Lê Mentes — a inteligência alienígena que vive nos oceanos da Terra

    Imagine encontrar uma inteligência que não se parece com nada que você reconhece. Não tem esqueleto. Não tem cérebro centralizado como o seu. Dois terços de seus neurônios estão nos braços — braços que pensam, sentem, tomam decisões independentes do corpo central. Essa criatura pode abrir potes de vidro por dentro, reconhecer rostos humanos, usar ferramentas, resolver quebra-cabeças complexos, e fugir de aquários atravessando corredores inteiros de laboratórios é noite — para voltar antes do amanhecer. Ela edita seu próprio RNA para se adaptar a mudanças de temperatura. Seu sangue é azul. Ela tem trás corações. E quando quer desaparecer, muda de cor e textura em milissegundos, imitando pedra, coral, areia.

    O Polvo Que Lê Mentes — a inteligência alienígena que vive nos oceanos da Terra
    alana barthel — CC BY 4.0 (via Wikimedia Commons)

    O polvo é, provavelmente, a coisa mais próxima de uma inteligência alienígena que jamais encontraremos — e está aqui, nos oceanos da Terra, separado de nós por 600 milhões de anos de evolução divergente. O último ancestral comum entre humanos e polvos foi um verme achatado que rastejava no fundo do oceano. Desde então, cada linhagem desenvolveu inteligência de forma totalmente independente. é inteligência convergente: o universo chegou ao mesmo resultado (consciência) por dois caminhos completamente diferentes.

    Edição de RNA: o superpoder invisível

    A maioria dos animais — incluindo humanos — adapta-se ao ambiente através de mutações no DNA, um processo lento que leva gerações. Os polvos fazem algo radicalmente diferente: eles editam seu RNA mensageiro em tempo real. O DNA permanece o mesmo, mas a transcrição do RNA é alterada, permitindo que proteínas diferentes sejam produzidas em resposta a mudanças ambientais — em minutos, não em milênios. Aproximadamente 60% do transcriptoma neural do polvo sofre edição de RNA. Em humanos, esse número é menos de 1%.

    Isso significa que o polvo pode literalmente reprogramar partes de seu sistema nervoso conforme a necessidade. à uma plasticidade que desafia nossa compreensão de biologia. E o preço dessa habilidade é que o DNA do polvo evolui muito lentamente — ele “escolheu” abrir mão da evolução genética rápida em troca de adaptabilidade instantânea.

    Consciência distribuída

    Um polvo não pensa “com a cabeça”. Cada braço tem um gânglio nervoso que age como um minicérebro local — capaz de processar informações têteis, químicas e visuais de forma autônoma. Quando um braço de polvo é cortado, ele continua se movendo, explorando, agarrando objetos — por horas. O braço está “pensando” sozinho. O polvo não “controla” seus braços como você controla seus dedos; ele “negocia” com eles, como um condutor liderando uma orquestra de solistas.

    Se um dia encontrarmos vida inteligente fora da Terra, é mais provável que ela se pareça com um polvo do que com um humano. E isso significa que talvez — apenas talvez — a inteligência que procuramos no cosmos já esteja aqui, nos olhando com olhos que evoluíram num caminho completamente diferente do nosso, esperando que a entendamos.

  • Tábata Amaral: a cientista política que virou a voz da ciência e educação no Congresso

    Tábata Amaral: a cientista política que virou a voz da ciência e educação no Congresso

    Tábata Amaral não é engenheira de software nem fundadora de startup. Mas é uma das vozes mais importantes sobre ciência, educação e tecnologia no Brasil hoje. Formada em Ciência Política e Astrofísica por Harvard, ela representa uma rara combinação: pensamento científico rigoroso + atuação política concreta + alcance popular. O resultado é uma deputada federal (eleita por São Paulo em 2018 e reeleita em 2022) que consegue falar de verba pra pesquisa, inclusão digital e reforma educacional com a mesma fluência.

    Tábata Amaral: a cientista política que virou a voz da ciência e educação no Congresso
    Wikimedia Commons — CC BY 2.0, autor PSB na Câmara dos Deputados

    Da periferia a Harvard

    Tábata cresceu na periferia de São Paulo, filha de uma diarista e um cobrador de ônibus. Ganhou medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Matemática e, com bolsa integral, entrou no colégio particular. Dali, foi aceita em Harvard com bolsa — onde estudou astrofísica e política. Voltou ao Brasil com a convicção de que o problema não é falta de talento. É falta de oportunidade.

    No Congresso, foi uma das autoras do marco legal das startups, defendeu ativamente o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) contra cortes e relatou a reformulação do Fundeb — o principal mecanismo de financiamento da educação básica. Em 2024-2025, entrou de cabeça no debate sobre regulação de IA no Brasil, defendendo o PL 2.338/2023 com ênfase em transparência e proteção de direitos fundamentais.

    Tábata não é unanimidade — e ela sabe disso. Já foi criticada tanto pela esquerda quanto pela direita. Mas num Congresso onde poucos entendem de tecnologia, ter alguém que leu papers de machine learning e consegue explicar pra um plenário o que é viés algorítmico… é raro. E necessário.

  • O Trovão Que Nunca Para — a lenda, a geologia e o espetáculo de 275 cachoeiras caindo ao mesmo tempo

    O Trovão Que Nunca Para — a lenda, a geologia e o espetáculo de 275 cachoeiras caindo ao mesmo tempo

    Antes de você ver as Cataratas do Iguaçu, você as ouve. A quilômetros de distância, um rugido contínuo — um trovão que nunca para, como dizem os Guarani. Quando você finalmente chega, o que vê desafia a escala humana: 275 cachoeiras individuais, distribuídas em 2,7 quilômetros de largura, despejando 1.500 metros cúbicos de água por segundo no abismo. A Garganta do Diabo — a queda principal — tem 82 metros de altura. A névoa sobe a 150 metros. Arco-íris se formam espontaneamente. A sensação é de estar na borda do mundo.

    Tudo isso é real. Mas a história de como as cataratas surgiram — tanto a geológica quanto a mítica — é ainda mais impressionante.

    A falha que criou o espetáculo

    Geologicamente, as Cataratas do Iguaçu são resultado de um derrame de basalto — uma das maiores erupções vulcânicas da história do planeta, ocorrida há 130 milhões de anos, que cobriu uma área do tamanho da França com lava. Essa camada de basalto, chamada de Formação Serra Geral, é a rocha sobre a qual o Rio Iguaçu corre. Mas o rio encontra uma falha geológica — uma fratura na crosta terrestre — e é ali que a água despenca. As cataratas não são uma cachoeira. São o ponto em que um rio inteiro encontra um degrau de 80 metros na crosta terrestre.

    E as cataratas estão recuando. A força da água desgasta o basalto na base da queda, criando uma cavidade que eventualmente colapsa. A cada colapso, a borda da catarata recua alguns metros rio acima. Em termos geológicos, as Cataratas do Iguaçu estão “andando” — e já andaram 28 quilômetros desde sua posição original, onde hoje fica a foz do rio no Paraná.

    Naipi e Tarobá: a lenda do amor que furou a pedra

    Os Guarani contam que o Rio Iguaçu era habitado por uma serpente gigante, o deus M’Boi. Todo ano, uma bela jovem era sacrificada a ele. Naipi foi a escolhida. Mas ela era apaixonada por Tarobá, um jovem guerreiro que decidiu resgatá-la numa canoa. M’Boi, furioso, perseguiu o casal. Com seu corpo imenso, ele retorceu o leito do rio — criando as cataratas. Naipi foi transformada em pedra na base da queda. Tarobá, numa palmeira no topo. Separados para sempre pela fúria do deus, mas unidos pela visão: a palmeira inclinada sobre a Garganta do Diabo olhando eternamente para a pedra onde Naipi repousa.

    A lenda é bela. Mas talvez o mais impressionante seja que ela captura, intuitivamente, a essência geológica: as cataratas foram criadas por uma força — não divina, mas tectônica — que literalmente “retorceu” a crosta terrestre. Os Guarani não tinham placas tectônicas. Tinham M’Boi. E a intuição era a mesma.

  • Henrique Dubugras: o brasileiro de 26 anos que vale bilhões com a Brex

    Henrique Dubugras: o brasileiro de 26 anos que vale bilhões com a Brex

    Henrique Dubugras programava aos 12 anos. Aos 14, fundou sua primeira empresa — uma desenvolvedora de games que não deu certo. Aos 16, criou a Pagar.me, uma plataforma de pagamentos que vendeu por dezenas de milhões. Ele ainda estava no colégio. Hoje, aos 26 anos, é cofundador da Brex, uma fintech avaliada em US$12 bilhões — e sua fortuna pessoal é estimada em mais de US$2 bilhões.

    Henrique Dubugras: o brasileiro de 26 anos que vale bilhões com a Brex
    Wikimedia Commons — CC BY 2.0, autor TechCrunch

    O cartão corporativo que comeu o mercado

    A Brex nasceu de uma dor real: Henrique e seu cofundador Pedro Franceschi (também brasileiro, também programador adolescente) chegaram no Vale do Silício para participar da aceleradora Y Combinator e descobriram que, como imigrantes sem histórico de crédito americano, não conseguiam um simples cartão corporativo. Nenhum banco queria dar crédito a dois adolescentes brasileiros. Então eles decidiram criar um banco que não usasse histórico de crédito pessoal para avaliar empresas.

    A Brex avalia o risco da empresa com dados em tempo real — saldo bancário, receita, investidores. Se a empresa tem dinheiro, tem crédito. O conceito explodiu. Em 2019, a Brex já valia US$2,6 bilhões (menos de 2 anos após o lançamento). Em 2022, US$12 bilhões. Hoje é a principal plataforma financeira para startups americanas, com dezenas de milhares de clientes.

    Henrique é conhecido por ser extremamente focado, dormir pouco e tomar decisões rápido — um estereótipo de founder do Vale, mas na versão brasileira que deu certo. Ele e Pedro já doaram milhões para causas de educação no Brasil. A história deles é a prova de que programar cedo + dor real + execução impecável pode levar muito longe — mesmo começando sem um dólar no bolso em São Paulo.

  • A Cicatriz Visível do Espaço — o que a Grande Muralha realmente nos conta sobre poder, medo e obsessão

    A Cicatriz Visível do Espaço — o que a Grande Muralha realmente nos conta sobre poder, medo e obsessão

    A Grande Muralha da China é o único objeto construído por mãos humanas que é visível do espaço. Não a olho nu — isso é um mito, astronautas confirmam que ela é fina demais e se mistura com o terreno — mas visível sim, com lentes e equipamentos. E não é uma muralha. É um sistema de defesa que se estende por 21.196 quilômetros, construído ao longo de 2.000 anos por dezenas de dinastias. Mais de 400.000 pessoas morreram durante sua construção. Muitos corpos estão literalmente dentro da muralha.

    A Cicatriz Visível do Espaço — o que a Grande Muralha realmente nos conta sobre poder, medo e obsessão
    Wikimedia Commons — CC0, autor Velatrix

    O que leva uma civilização a gastar dois milênios e centenas de milhares de vidas construindo um muro? A resposta não está na engenharia. Está no medo.

    Não era uma muralha — era uma declaração

    Quando pensamos na Grande Muralha, imaginamos a versão da Dinastia Ming (séculos XIV-XVII): pedra, tijolo, torres de vigia, a imagem icônica. Mas essa é apenas a última camada. As primeiras muralhas foram construídas no século V a.C., com terra batida, por reinos que guerreavam entre si muito antes de existir uma “China” unificada. A muralha começou como centenas de muros desconexos — cada reino protegendo suas fronteiras dos vizinhos.

    Qin Shi Huang, o primeiro imperador a unificar a China (221 a.C.), conectou esses muros numa linha contínua. A Grande Muralha não foi construída para proteger a China “do mundo”. Foi construída para proteger o imperador — e sua obsessão pela imortalidade — das ameaças que vinham do norte, principalmente os Xiongnu, um povo nômade cuja cavalaria era militarmente superior.

    Funcionou? Nem sempre. Genghis Khan simplesmente contornou a muralha. Os Manchus a atravessaram subornando um general. Mas estrategicamente, a muralha não era feita para ser impenetrável: era feita para controlar o fluxo de pessoas e mercadorias, marcar território e — acima de tudo — enviar uma mensagem: “este império é tão poderoso que pode gastar recursos infinitos numa barreira que atravessa montanhas, desertos e pântanos.”

    O paradoxo do muro infinito

    Há algo profundamente humano — e profundamente trágico — na Grande Muralha. Ela é um monumento ao medo. Medo do outro, do estrangeiro, do desconhecido. Cada pedra, cada quilômetro, cada torre de vigia foi erguida por pessoas que acreditavam que segurança se constrói com exclusão. Dois mil anos depois, continuamos construindo muros — físicos, econômicos, digitais — pela mesma razão. E continuamos aprendendo a mesma lição: muros não detêm o tempo. Dinastias caíram. A muralha permanece. Mas como cicatriz. Não como triunfo.

  • Cristina Junqueira: a cofundadora do Nubank que revolucionou os bancos no Brasil

    Cristina Junqueira: a cofundadora do Nubank que revolucionou os bancos no Brasil

    Em 2013, abrir uma conta no Brasil era um pesadelo: ir na agência, enfrentar fila, levar comprovante de residência, esperar semanas. Hoje, você abre uma conta no Nubank em 5 minutos pelo celular, sem tarifa, sem papelada. Por trás dessa revolução tem um trio — e Cristina Junqueira é a engenheira que fez a mágica técnica e de negócios acontecer.

    De estagiária a bilionária

    Cristina é engenheira de produção pela USP com especialização em administração, e antes do Nubank trabalhou no Itaú, onde liderava a área de cartões de crédito. Ela sabia exatamente como os bancos funcionavam por dentro — e exatamente por que eram tão ruins para os clientes. Em 2013, se juntou a David Vélez e Edward Wible para fundar o Nubank com US$2 milhões de investimento inicial.

    Em 2021, o Nubank fez IPO na bolsa de Nova York avaliado em US$41 bilhões — o maior IPO de um banco latino-americano da história. Cristina é a primeira mulher brasileira a se tornar bilionária criando uma empresa do zero (não herdando).

    A empresa hoje tem mais de 100 milhões de clientes, se expandiu para México e Colômbia, e continua sendo um dos casos mais estudados de fintech no mundo. E Cristina, com dois filhos, uma fortuna de US$1,3 bi e uma rotina que inclui reuniões no conselho do Nubank e da Totvs, segue sendo uma das executivas mais influentes do país. Ela costuma dizer que o segredo é focar no cliente, não no concorrente — porque você pode controlar a experiência que entrega, mas não pode controlar o que os outros fazem.

  • O Paraíso Que Vai Desaparecer — Maldivas e a corrida contra o oceano

    O Paraíso Que Vai Desaparecer — Maldivas e a corrida contra o oceano

    As Maldivas são o país mais baixo do mundo. A altitude média é de 1,5 metro acima do nível do mar. O ponto mais alto — uma colina na ilha de Villingili — tem 2,3 metros. Para efeito de comparação, se você medir 1,80m, a maior parte do território maldivo está abaixo da sua cabeça.

    O Paraíso Que Vai Desaparecer — Maldivas e a corrida contra o oceano
    European Space Agency — Attribution (via Wikimedia Commons)

    Isso faz das Maldivas o primeiro país que o aquecimento global vai engolir. E o governo maldivo não está esperando de braços cruzados. Está comprando terras em outros países.

    A matemática do desaparecimento

    O nível do mar sobe atualmente a uma taxa de 3,7 milímetros por ano. Parece pouco. Mas para um país cuja maior parte do território está abaixo de 1,5 metro, 3,7 mm/ano significa que, até 2100, as Maldivas podem se tornar inabitáveis — não submersas completamente, mas com tanta intrusão de água salgada nos lençóis freáticos, tanta erosão costeira e tantas inundações que viver ali se torna impossível. O IPCC estima que o nível do mar pode subir entre 0,5 e 1,1 metro até 2100. Na estimativa mais otimista, as Maldivas perdem 30% do território. Na mais pessimista, desaparecem.

    Diante disso, o governo maldivo adotou uma estratégia que parece saída de ficção científica: está construindo ilhas artificiais. A mais ambiciosa à a Cidade Flutuante das Maldivas — um complexo planejado de 5.000 residências modulares que flutuam sobre uma base de concreto ancorada no fundo do mar, projetada para subir e descer com as marés e o nível do oceano. Não à uma metáfora. Já está em construção. Arquitetos holandeses — os maiores especialistas do mundo em viver abaixo do nível do mar — estão liderando o projeto.

    Ao mesmo tempo, o governo criou um fundo soberano para comprar terras na índia, Sri Lanka e Austrália. A ideia: se o país físico desaparecer, a nação maldiva sobrevive como entidade legal, com território comprado em outro lugar. à a primeira vez na história que um país planeja a própria realocação física devido a mudanças climáticas.

    O paradoxo turístico

    As Maldivas são um dos destinos de luxo mais famosos do mundo — resorts sobre a água, bangalés com piso de vidro, turistas chegando em jatos particulares. Esses turistas chegam em aviões a jato que emitem toneladas de CO2 por voo. O combustível que os trouxe está literalmente afundando o país que vieram admirar. é um paradoxo cruel: as Maldivas se tornaram famosas por sua beleza, e a fama está matando-as.

    A questão não é se as Maldivas vão desaparecer. é quando — e o que o resto do mundo fará quando o primeiro país soberano for literalmente apagado do mapa por causa das mudanças climáticas.