Axolotes — o Pokémon da vida real que se regenera infinitamente

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Voz do navegador · episódio narrado na Fase 2

Se você cortar o braço de um axolote, ele cresce de volta. Perfeito. Com ossos, músculos, nervos, vasos sanguíneos — tudo funcional. Se você cortar parte da medula espinhal, ela se regenera. Se você danificar o coração, o tecido cardíaco se reconstrói. Se você remover parte do cérebro — o cérebro volta a crescer. Sem cicatriz. Sem perda de função. O axolote é a criatura que zomba da biologia.

Essa salamandra aquática, nativa dos canais de Xochimilco, no México, é um caso extremo de neotenia — ela atinge a maturidade sexual sem sofrer metamorfose. Permanece no estado larval por toda a vida: com brânquias externas emplumadas (que lhe dão a aparência de um Pokémon), nadadeira dorsal translúcida e uma expressão permanentemente sorridente. É como se um girino se tornasse adulto sem jamais virar sapo. E esse estado larval perpétuo parece estar relacionado à sua capacidade sobre-humana de regeneração.

Como a regeneração funciona

Quando um axolote perde um membro, as células na ferida não formam uma cicatriz — elas formam um blastema, uma massa de células-tronco pluripotentes que se “desdiferenciam” (voltam a um estado embrionário) e depois se rediferenciam nos tecidos necessários. O blastema “lembra” qual parte do corpo está reconstruindo: um braço cortado no ombro gera um braço completo. Cortado no cotovelo, gera só o antebraço e a mão. Há um sistema de coordenadas posicionais — um “mapa” bioquímico — que diz às células exatamente o que reconstruir.

Humanos têm cicatrização — um processo muito mais rápido, mas que sacrifica a regeneração em troca de fechar a ferida antes que infecções se instalem. O axolote não tem pressa: a regeneração de um membro leva semanas. Mas o resultado é literalmente indistinguível do original.

O que estamos aprendendo

O genoma do axolote é 10 vezes maior que o humano — o maior genoma animal já sequenciado. Dentro desses 32 bilhões de pares de bases, os cientistas procuram os genes que controlam a regeneração. Já identificaram alguns, mas a complexidade é imensa. A promessa é que, um dia, possamos aplicar esses mecanismos em humanos — não para regenerar membros inteiros (ainda ficção científica), mas para tratar lesões de medula espinhal, danos cardíacos e doenças neurodegenerativas.

Enquanto isso, o axolote está criticamente ameaçado de extinção na natureza. Os canais de Xochimilco estão poluídos e invadidos por espécies introduzidas (tilápias e carpas) que comem seus ovos. A criatura que pode nos ensinar a regenerar órgãos pode desaparecer antes que aprendamos seus segredos.