O Mapa Que Ninguém Terminou — por que o universo está se expandindo em duas velocidades diferentes

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Voz do navegador · episódio narrado na Fase 2

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Edwin Hubble olhou pelo telescópio do Monte Wilson em 1929 e viu algo que mudaria tudo: as galáxias estavam se afastando umas das outras. Quanto mais distantes, mais rápido. O universo estava se expandindo. Essa descoberta levou, naturalmente, à pergunta seguinte: quão rápido ele está se expandindo? Nove décadas depois, ainda não chegamos a um acordo sobre a resposta. E o desacordo é um dos maiores escândalos da cosmologia moderna.

A Constante de Hubble — o número que descreve a taxa de expansão do universo — deveria ser… constante. Medida de um jeito, deveria bater com qualquer outro jeito de medir. Mas não bate. Medindo a radiação cósmica de fundo — a primeira luz do universo, 380.000 anos após o Big Bang — o satélite Planck (ESA) calculou: 67,4 quilômetros por segundo por megaparsec. Medindo estrelas variáveis do tipo Cefeida e supernovas — velas-padrão que permitem calcular distâncias — o telescópio Hubble (NASA) encontrou: 73,0. A diferença parece pequena. Em cosmologia, é um abismo. A probabilidade de ser erro estatístico é menor que 1 em 100.000.

Essa discrepância é chamada de Tensão de Hubble. E ela representa uma das três possibilidades. Possibilidade um: uma das medições está errada. Os cosmólogos passaram a última década revisando cada passo, cada calibragem, cada suposição. As medições ficaram mais precisas. A discrepância aumentou. Possibilidade dois: tem algo errado com o nosso modelo do universo — o chamado Modelo Padrão da Cosmologia (Lambda-CDM). Se for isso, precisamos revisar a natureza da matéria escura, da energia escura, ou de ambas — que juntas compõem 95% do universo. Possibilidade três: existe uma nova física. Uma quinta força. Uma partícula desconhecida. Algo que estava agindo nos primórdios do universo e que nossas teorias não capturam.

Qualquer que seja a resposta, a Tensão de Hubble é um presente disfarçado de embaraço. As maiores revoluções na física não vieram de confirmações elegantes. Vieram de anomalias teimosas: o periélio de Mercúrio que não batia com Newton levou a Einstein. A radiação de corpo negro que não batia com a física clássica levou à mecânica quântica. A Tensão de Hubble pode ser o próximo degrau.

E há algo ironicamente poético no fato de que, quanto mais longe olhamos no espaço — e portanto mais longe no tempo — menos certeza temos sobre o que estamos vendo. O mapa do universo está sendo desenhado há quase um século. E ainda não conseguimos concordar sobre a escala.