A história da capoeira carioca guarda poucos nomes tão respeitados quanto o de Mestre Noronha. Ligado à tradição do Rio de Janeiro do início do século XX, ele é lembrado como um elo vivo entre a capoeira antiga, que se praticava nas ruas e nos morros, e a capoeira que viria a se organizar em academias décadas depois. Sua importância, porém, não vem apenas do jogo: vem sobretudo da memória que ele deixou registrada por escrito.
A capoeira carioca do início do século XX
No começo do século passado, a capoeira no Rio de Janeiro tinha uma cara própria, diferente da que se consolidava em Salvador. Era uma prática de rua, marcada por golpes rápidos, navalhas escondidas e uma forte ligação com a malandragem urbana. Os capoeiristas cariocas se reuniam em terreiros improvisados, em festas e em espaços públicos, e cultivavam uma ética própria de lealdade e de respeito entre pares.
Nesse cenário, os velhos mestres eram figuras centrais. Eles não ensinavam em academias formais, mas transmitiam seu saber no cotidiano, observando os mais jovens, corrigindo o jogo e contando histórias. A capoeira carioca desse período ainda não tinha os nomes de golpes padronizados que conhecemos hoje, e cada mestre guardava seu próprio repertório, parte de uma tradição ao mesmo tempo pessoal e coletiva.
Segundo relatos transmitidos pela tradição oral, Noronha teria nascido nas primeiras décadas do século e aprendido a arte ainda menino, convivendo com velhos mestres das maltas cariocas. A escassez de registros documentais torna difícil reconstruir com precisão sua biografia, mas os depoimentos que restaram o colocam como um praticante dedicado e, mais tarde, como um professor paciente e respeitado.
Os cadernos de Noronha
O que tornou Mestre Noronha uma figura singular foi a decisão de escrever. Em cadernos manuscritos, ele registrou golpes, nomes de antigos capoeiristas, toques de berimbau e observações sobre o cotidiano da capoeira carioca. Esses manuscritos são hoje tratados por pesquisadores como uma das fontes mais valiosas sobre a capoeira antiga do Rio de Janeiro.
Neles, Noronha descreve uma capoeira que ainda não tinha se dividido nos estilos que conhecemos hoje. Fala de golpes de perna, de cabeçadas, de navalhas e de um vocabulário próprio, em parte perdido. A leitura desses cadernos permite entrever como os praticantes pensavam a própria arte e como organizavam seu mundo social, em um período em que a repressão policial ainda era intensa.
O valor desses escritos é enorme porque a capoeira sempre foi, essencialmente, uma cultura oral. Quase tudo o que se sabia era passado de boca em boca, de mestre para aluno, e estava sujeito ao esquecimento. Ao colocar no papel aquilo que aprendeu, Noronha fez algo raro: fixou, para as gerações futuras, um retrato de um mundo que, de outra forma, teria se perdido para sempre.
Mestre de mestres
A expressão “mestre de mestres” costuma aparecer quando se fala de Noronha, e ela ajuda a entender seu lugar na linhagem carioca. Por suas mãos, segundo a memória da comunidade, passaram praticantes que depois se tornariam professores e difusores da arte em outras gerações. Ainda que a documentação não permita reconstruir essa linhagem com exatidão, o reconhecimento que a comunidade lhe atribui é incontestável.
Esse respeito se explica também pelo fato de Noronha ter permanecido fiel a uma capoeira de raiz, ligada à rua e à tradição, mesmo quando o cenário da arte começou a mudar. Em um momento de institucionalização crescente, ele representou a ponte entre dois mundos: o da capoeira antiga, oral e informal, e o da capoeira que se estruturava em grupos e escolas.
Muitos dos que o conheceram lembram não apenas de sua habilidade no jogo, mas de sua generosidade em ensinar. Essa combinação — técnica e disponibilidade — é o que costuma definir os grandes mestres, e Noronha a reunia com naturalidade, sem fazer alarde de sua própria importância.
O legado para a memória da capoeira
O maior legado de Mestre Noronha talvez não esteja em um golpe ou em uma sequência de jogo, mas na preservação da memória. Ao escrever o que aprendeu e o que viu, ele garantiu que um pedaço importante da história da capoeira não se perdesse. Sua obra é hoje consultada por historiadores, praticantes e curiosos que buscam compreender as raízes cariocas da arte.
Para os capoeiristas de hoje, conhecer Noronha é lembrar que a capoeira é, antes de tudo, uma tradição de transmissão entre gerações. Ele dedicou a vida a manter viva uma memória que, sem ele, talvez tivesse se diluído. Por isso, seu nome segue sendo pronunciado com reverência nas rodas e nos estudos sobre a capoeira do Rio de Janeiro, como símbolo de um tempo em que a arte sobrevivia pela força da palavra e do exemplo.
Essa redescoberta, aliás, não foi imediata. Por muito tempo, os manuscritos de Noronha circularam de forma discreta, guardados por pessoas próximas e consultados por poucos. Foi somente com o avanço dos estudos acadêmicos sobre a capoeira, sobretudo a partir do fim do século XX, que seu trabalho passou a receber a atenção que merece. Hoje, trechos de seus cadernos aparecem em livros, artigos e exposições, e seu nome figura, com justiça, entre os grandes guardiões da memória da arte. Ler Noronha é, para muitos, um reencontro com uma capoeira carioca quase desaparecida, mas que ainda pulsa em cada roda formada nas ruas e academias do Rio de Janeiro.
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