A capoeira carregou por décadas o peso de ter sido criminalizada pelo Código Penal de 1890. Mas a história da arte começou a mudar na década de 1930, durante a era de Getúlio Vargas, quando a capoeira deixou oficialmente de ser crime e iniciou sua transformação em esporte e símbolo da identidade nacional. Esse processo foi decisivo para a sobrevivência e o reconhecimento da capoeira no Brasil.
O contexto da era Vargas
Getúlio Vargas chegou ao poder em 1930 e, com o Estado Novo, em 1937, implantou um projeto nacionalista que valorizava a cultura popular como base da identidade brasileira. Nesse contexto, manifestações antes perseguidas, como o samba e a capoeira, passaram a ser vistas com outros olhos, como expressões autênticas do povo brasileiro.
O nacionalismo varguista buscava construir a imagem de uma nação forte e unificada, e as manifestações populares serviam a esse propósito. A capoeira, que antes era símbolo de marginalidade, começou a ser reabilitada como esporte e expressão cultural genuinamente nacional.
O papel central de Mestre Bimba
Nenhum nome foi mais importante nesse processo do que o de Mestre Bimba. Criador da capoeira regional, ele trabalhou para tirar a capoeira da clandestinidade, apresentando-a como método de educação física e disciplina. Bimba chegou a se apresentar para autoridades baianas, demonstrando a eficiência e a beleza da luta que ensinava em sua academia, no bairro da Liberdade, em Salvador.
Ao vestir seus alunos com uniformes e adotar regras de conduta, Bimba conferiu à capoeira regional uma aparência de organização e respeitabilidade que agradava às elites. Essa estratégia foi fundamental para que a arte deixasse de ser associada exclusivamente à marginalidade e conquistasse aceitação social.
O reconhecimento de 1937
Registros históricos indicam que, em 1937, a capoeira obteve um reconhecimento oficial importante. Nesse ano, Mestre Bimba conseguiu autorização oficial para o funcionamento do seu Centro de Cultura Física e Capoeira Regional, em Salvador. Esse registro é frequentemente citado como um marco da legalização da capoeira.
Bimba já havia conquistado espaço junto às autoridades baianas anos antes, apresentando a capoeira regional como método de educação física. O reconhecimento de 1937 consolidou essa conquista e abriu caminho para que a capoeira fosse ensinada abertamente, fora da clandestinidade que a marcara desde o século XIX.
Da proibição ao esporte
A legalização não apagou de uma vez o preconceito contra a capoeira. Durante décadas, a prática continuou associada às classes populares e enfrentou resistência em setores da elite. Mas o reconhecimento oficial criou as condições para que a capoeira se organizasse, se difundisse e conquistasse novos espaços.
O novo Código Penal de 1940, que substituiu o de 1890, não mais mencionava a capoeira como crime, consolidando juridicamente o fim da proibição. A partir daí, a capoeira passou a ser vista cada vez mais como esporte, e os mestres começaram a formar academias e a sistematizar o ensino.
Contradições da era Vargas
É importante, porém, olhar esse processo com equilíbrio. A valorização da capoeira na era Vargas não significou uma aceitação plena e irrestrita. O regime nacionalista também buscava controlar e disciplinar as manifestações populares, enquadrando-as em seus propósitos de propaganda e de construção da identidade nacional.
Além disso, o preconceito contra os praticantes mais humildes não desapareceu da noite para o dia. A capoeira que ganhou visibilidade era, em grande medida, uma versão “domesticada” e organizada, distante das rodas de rua que continuaram existindo nas margens. Essa tensão entre valorização e controle marca até hoje as discussões sobre a história da arte.
A capoeira como símbolo nacional
A trajetória da capoeira na era Vargas culminou na sua consagração como símbolo da identidade brasileira. O que antes era perseguido tornou-se motivo de orgulho nacional, apresentado ao mundo como expressão da criatividade e da resistência do povo brasileiro.
Essa transformação não apagou as marcas da perseguição, mas as ressignificou. A capoeira que hoje encanta o mundo carrega em si a memória de um tempo em que foi crime — e a vitória de ter sobrevivido, legalizada e reconhecida como patrimônio da humanidade.
No Estado Novo, a cultura popular foi tratada como matéria-prima da propaganda nacional. O samba, o carnaval e a capoeira ganharam visibilidade oficial, mas também foram submetidos a regras e a uma certa domesticação. A capoeira que emergiu nesse período era, em parte, uma versão organizada e esportivizada, distante das rodas de rua que continuaram vivas nas periferias.
Ainda assim, é inegável o avanço representado pela legalização. Ao deixar de ser crime, a capoeira pôde ser ensinada abertamente, estudada e difundida, construindo as bases do reconhecimento que viria décadas depois. A era Vargas, com todas as suas contradições, foi o ponto de virada que tirou a arte das sombras.
Para além do texto legal, o que mudou foi a percepção da sociedade. Pouco a pouco, a capoeira deixou de ser vista apenas como caso de polícia e passou a ser reconhecida como manifestação legítima da cultura brasileira, um processo que se aprofundaria nas décadas seguintes até a consagração como patrimônio da humanidade.
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