Mestre Cobrinha Verde

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Capoeira — File:MestresCandeias.jpg

A capoeira do século XX foi construída por figuras que, muitas vezes, não tiveram o reconhecimento que mereciam em vida. Entre elas está Mestre Cobrinha Verde, capoeirista baiano cuja fama nos anos 1940 e 1950 percorreu as ruas de Salvador. Sua história mistura luta, sobrevivência e uma devoção inabalável à capoeira.

Origens e apelido

Rafael Alves França, o Cobrinha Verde, nasceu em Salvador, na Bahia, no início do século XX. O apelido, segundo a tradição oral, remete à sua habilidade e agilidade: como uma cobra, ele se movia com rapidez e surpreendia os adversários com golpes rápidos e certeiros. O “verde” completava a imagem de uma figura jovem, ágil e imprevisível.

A tradição conta que Cobrinha Verde aprendeu capoeira ainda na infância, observando e treinando com capoeiristas mais velhos nas ruas e feiras de Salvador. Naquela época, a capoeira ainda carregava o estigma da marginalidade, e os praticantes viviam entre a roda e a luta diária pela sobrevivência.

Guarda-costas e capoeirista

Um dos capítulos mais conhecidos da vida de Cobrinha Verde foi sua atuação como guarda-costas em Salvador. Na primeira metade do século XX, era comum que políticos, comerciantes e personalidades contratassem capoeiristas para proteção pessoal, tamanha a fama de sua eficiência na luta.

Relatos orais descrevem Cobrinha Verde como um homem de grande coragem e habilidade, capaz de enfrentar adversários em situações de perigo real. Sua reputação como lutador se espalhou pela cidade, e ele se tornou uma das figuras mais respeitadas — e temidas — do universo da capoeira baiana.

A capoeira de rua

Cobrinha Verde pertenceu a uma geração de capoeiristas que não se encaixava nos moldes das academias que começavam a surgir. Sua capoeira era a das ruas, das feiras, dos terreiros e das festas populares, marcada pela improvisação e pela necessidade real de defesa. Era uma capoeira viva, aprendida no cotidiano e testada em situações concretas.

Esse perfil de capoeirista de rua é fundamental para entender a diversidade da arte no século XX. Enquanto Bimba sistematizava a regional e Pastinha organizava a angola, homens como Cobrinha Verde mantinham acesa a chama de uma capoeira espontânea, que existia muito antes dos rótulos e das formalidades.

A capoeira dos anos 1940 e 1950

Os anos 1940 e 1950 foram um período de transformação para a capoeira. De um lado, Mestre Bimba já havia criado a capoeira regional e conquistava espaço para a arte junto às autoridades. De outro, a capoeira angola de Pastinha se organizava como tradição. Cobrinha Verde transitava por esse cenário como representante da capoeira de rua, aquela que não cabia em academias.

Ele viveu a capoeira em sua forma mais crua: a das feiras, dos portos e das festas populares. Sua trajetória ilustra um tempo em que a capoeira era, antes de tudo, um instrumento de defesa e de afirmação para os homens negros e pobres de Salvador.

A memória registrada

Grande parte do que se sabe sobre Cobrinha Verde vem da tradição oral, mas sua trajetória também foi registrada por pesquisadores da capoeira baiana. Relatos colhidos junto a mestres antigos e a capoeiristas que conviveram com ele ajudaram a preservar sua história, garantindo que sua contribuição não se perdesse no anonimato.

Essa memória registrada é preciosa porque a capoeira de rua, por sua própria natureza, deixou poucos documentos. As histórias de figuras como Cobrinha Verde dependem da disposição de mestres e estudiosos em ouvir, registrar e transmitir, num esforço contínuo de preservação da memória oral da arte.

As histórias de Cobrinha Verde

A tradição oral preserva inúmeras histórias sobre a valentia de Cobrinha Verde. Conta-se, por exemplo, que ele enfrentava múltiplos adversários ao mesmo tempo e que sua agilidade o fazia parecer estar em vários lugares ao mesmo tempo. Verdadeiras ou exageradas, essas narrativas revelam o impacto que sua figura causou em quem o viu jogar.

Essas histórias são parte do folclore da capoeira e cumprem um papel importante: elas mantêm viva a memória de uma geração que não deixou registros escritos. Ao recontar os feitos de Cobrinha Verde, os capoeiristas de hoje homenageiam não apenas o homem, mas todo um universo de mestres de rua que a história oficial quase esqueceu.

Legado e memória

Cobrinha Verde faleceu no início dos anos 1980, mas sua memória permanece viva na tradição oral da capoeira baiana. Mestres e pesquisadores que registraram a história da arte dedicam a ele passagens importantes, reconhecendo sua contribuição para a capoeira de rua.

A história de Cobrinha Verde nos lembra que a capoeira não foi feita apenas de mestres famosos e academias reconhecidas. Ela também foi construída por figuras anônimas e lendárias, que viveram e defenderam a arte no cotidiano duro das ruas, garantindo que ela chegasse até os dias de hoje.

Lembrar de mestres como Cobrinha Verde é também um ato de justiça, que devolve à capoeira a riqueza de suas raízes populares e homenageia aqueles que a mantiveram viva nos tempos mais difíceis.

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