Mestre João Pequeno

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A capoeira angola deve muito de sua preservação a um homem de corpo pequeno e alma gigante: João Pereira dos Santos, o Mestre João Pequeno. Companheiro de décadas de Mestre Pastinha, ele se tornou um dos maiores guardiões da tradição angola, levando adiante os ensinamentos do mestre quando a capoeira enfrentava seus momentos mais difíceis.

De Araci para Salvador

João Pequeno nasceu em 1917, na cidade de Araci, no sertão da Bahia. Ainda jovem, migrou para Salvador em busca de trabalho, como tantos outros baianos do interior. Foi na capital que ele conheceu a capoeira e, mais importante, conheceu Mestre Pastinha, que mudaria o rumo de sua vida.

A tradição conta que João Pequeno entrou na capoeira já adulto, depois de trabalhar como estivador e em outras atividades pesadas. Mesmo começando mais tarde, sua dedicação foi tamanha que rapidamente se destacou na academia de Pastinha, no Pelourinho.

A parceria com Pastinha

João Pequeno e Pastinha formaram uma dupla que marcou a história da capoeira angola. Enquanto Pastinha era o guardião da filosofia e da estrutura da academia, João Pequeno era o braço direito, responsável por dar aula, organizar a roda e transmitir o conhecimento aos mais jovens.

Ao lado de João Grande, João Pequeno formou a espinha dorsal do Centro Esportivo de Capoeira Angola. Juntos, os dois “Joões” mantiveram viva a chama da capoeira angola no Pelourinho, formando gerações de capoeiristas que hoje se espalham pelo mundo.

A amizade com João Grande

A relação entre João Pequeno e João Grande foi muito além da parceria de trabalho. Os dois mestres cultivaram uma amizade profunda, marcada por respeito mútuo e pela dedicação comum a Pastinha. Enquanto João Grande era reconhecido por sua estatura imponente, João Pequeno se destacava pela agilidade e pela precisão do jogo.

A dupla se tornou símbolo da capoeira angola no século XX. Quando João Grande partiu para os Estados Unidos e João Pequeno permaneceu em Salvador, cada um a seu modo continuou a missão de preservar a tradição, provando que a linhagem de Pastinha podia florescer tanto no Brasil quanto no exterior.

O herdeiro da linhagem

Quando Pastinha morreu, em 1981, a capoeira angola passava por um período de fragilidade. Muitos temiam que a tradição se perdesse. Foi então que João Pequeno assumiu, com humildade e firmeza, a missão de manter vivos os ensinamentos do mestre. Ele continuou ensinando no bairro do Garcia e, depois, no Forte de Santo Antônio Além do Carmo, em Salvador.

Sua academia se tornou ponto de peregrinação de capoeiristas do mundo inteiro. A simplicidade do mestre, sempre disposto a ensinar e a conversar, conquistou alunos de todas as nacionalidades, que viam nele a ponte direta com a tradição de Pastinha.

Os últimos anos e a consagração

Mesmo na velhice, João Pequeno continuou ativo, participando de rodas, recebendo visitantes e transmitindo seu conhecimento com a generosidade de sempre. Sua casa, próxima ao Forte, tornou-se um espaço de encontro e de aprendizado, onde a capoeira angola era vivida no cotidiano, e não apenas nos momentos de treino.

A longevidade do mestre impressionava: ele atravessou praticamente todo o século XX jogando capoeira, testemunhando a transformação da arte de prática perseguida a patrimônio cultural. Sua memória guardava detalhes de um tempo que poucos puderam conhecer, e essa memória viva era, em si, um tesouro inestimável.

O jogo de João Pequeno

Quem teve a oportunidade de ver João Pequeno jogar descreve um jogo de rara beleza: baixo, cadenciado e cheio de mandinga, no mais puro estilo da capoeira angola. Ele não precisava de força bruta; sua eficiência vinha da leitura do adversário e da economia de movimentos, qualidades que só a experiência e a sabedoria acumuladas em décadas de roda podem proporcionar.

Mesmo na velhice, João Pequeno impressionava pela lucidez e pela precisão. Seu jogo era uma aula viva, que ensinava pelo exemplo aquilo que as palavras nem sempre conseguem transmitir. Os alunos que o acompanhavam guardam na memória a imagem do mestre em movimento, como um patrimônio que se manifestava a cada roda e a cada toque de berimbau.

Reconhecimento e legado

João Pequeno recebeu em vida inúmeros reconhecimentos, incluindo títulos de doutor honoris causa e homenagens do governo brasileiro. Em 2008, a roda de capoeira da qual participava foi registrada como patrimônio cultural, consolidando o valor de sua trajetória.

Mestre João Pequeno faleceu em 2011, aos 93 anos, deixando um legado imenso. Sua história é a prova de que a grandeza de um mestre não se mede pelo tamanho do corpo, mas pela força do compromisso com a tradição. A capoeira angola deve a ele — e a João Grande — a sua sobrevivência e o seu renascimento.

Hoje, em cada roda de angola, a presença de João Pequeno se faz sentir: no jogo baixo, na mandinga, no respeito ao berimbau. É a continuidade de uma linhagem que ele soube honrar como poucos.

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