Nos anos 1970, o samba carioca passava por uma crise de identidade. As gravadoras não investiam, os espaços tradicionais fechavam, e muitos temiam que o gênero estivesse condenado ao museu. Foi nesse contexto que um grupo de músicos do subúrbio começou a se reunir nos fundos de uma casa em Ramos, no Rio de Janeiro, para tocar samba do jeito deles — mais solto, mais percussivo, mais dançante. Mal sabiam eles que estavam inventando o pagode. E que esse som, décadas depois, lotaria estádios e dominaria o mainstream brasileiro.
Fundo de Quintal: onde tudo começou
O Grupo Fundo de Quintal foi formado oficialmente em 1978, a partir das rodas de samba que aconteciam no quintal do bloco carnavalesco Cacique de Ramos, em Ramos, zona norte do Rio. A formação original incluía Almir Guineto, Jorge Aragão, Neoci, Bira Presidente, Sereno, Ubirany e posteriormente Arlindo Cruz e Sombrinha — nomes que se tornariam lendas do samba.
A grande inovação do Fundo de Quintal foi instrumental. Eles introduziram o banjo (adaptado com afinação de cavaquinho por Almir Guineto), o tantã (um tipo de tambor de mão criado pelo grupo) e o repique de mão — instrumentos que deram ao pagode sua sonoridade característica. O ritmo ficou mais percussivo, mais dançante, mais informal — perfeito para rodas de samba. Músicas como “Do Fundo do Nosso Quintal”, “O Show Tem Que Continuar” e “Lucidez” se tornaram clássicos instantâneos.
Beth Carvalho: a madrinha do samba
Se o pagode tem uma madrinha, ela se chama Beth Carvalho. Cantora consagrada desde os anos 1970, Beth foi a primeira grande artista a abraçar o pagode nascente e levá-lo para o mainstream. Ela gravou composições de nomes do Cacique de Ramos quando as gravadoras ainda torciam o nariz pro novo som. Seu álbum “No Pagode” (1978) é um marco — uma artista estabelecida abrindo espaço para compositores e músicos da periferia.
Beth também foi responsável por revelar Zeca Pagodinho ao grande público. Em 1983, ela gravou “Camarão que Dorme a Onda Leva”, composição de Zeca, e o convidou para participar do show. A partir dali, Zeca nunca mais saiu dos holofotes. Beth faleceu em 2019, mas sua importância para o samba brasileiro é incomensurável — foi ela quem fez a ponte entre as rodas de subúrbio e a indústria fonográfica, sem jamais trair a essência do samba.
Zeca Pagodinho: o malandro que conquistou o Brasil
Zeca Pagodinho é um fenômeno único na música brasileira. Natural de Del Castilho, subúrbio do Rio, Jessé Gomes da Silva Filho construiu uma carreira que atravessa quatro décadas sem perder a essência: a voz inconfundível, o jeito de malandro boa-praça, as letras que falam de amor, cerveja, amizade e das coisas simples da vida. Músicas como “Deixa a Vida Me Levar”, “Verdade”, “Caviar” e “Quando a Gira Girou” são cantadas em coro em qualquer canto do Brasil.
O que diferencia Zeca é a consistência. Enquanto muitos artistas de pagode dos anos 1990 sucumbiram às modas passageiras, Zeca manteve sua identidade intacta — repertório de qualidade, banda excelente, produção impecável. Ele lota arenas e casas de show com um público que vai do avô ao neto. Seu DVD “Acústico MTV” (2005) é um dos mais vendidos da história do formato no Brasil. Em 2023, Zeca completou 40 anos de carreira, celebrados com shows históricos no Maracanã e uma legião de fãs que só cresce.
Do pagode raiz ao pagode pop: uma trajetória polêmica
O termo “pagode” passou por uma transformação radical entre os anos 1980 e 1990. O que começou como samba de raiz com novas formas de tocar se transformou num fenômeno comercial de massa com grupos como Raça Negra, Só Pra Contrariar, Exaltasamba e posteriormente grupos como Sorriso Maroto e Turma do Pagode — que adicionaram elementos de pop, R&B e música eletrônica ao gênero.
Essa transição gerou debates acalorados entre puristas e modernizadores — como toda grande transformação na música popular. Há quem defenda que o “pagode romântico” dos anos 1990 descaracterizou o samba; há quem argumente que foi essa mesma vertente que manteve o gênero vivo e relevante no mainstream. A verdade, como sempre, está em algum lugar no meio. O fato é que, seja no Fundo de Quintal ou no Sorriso Maroto, o pagode continua sendo um dos gêneros mais populares do Brasil — e isso não acontece por acaso.
Do quintal do Cacique de Ramos para as arenas do Brasil inteiro: o pagode não é apenas uma evolução do samba — é a prova de que tradição e inovação podem andar juntas quando o que está em jogo é música de verdade, feita com alma e suingue brasileiro.
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