Existe um momento, em qualquer boa roda de samba, em que o tempo para. Alguém puxa um verso de Cartola, outro responde com Nelson Cavaquinho, e de repente todo mundo ali — do mais velho ao mais jovem — tá junto, cantando as mesmas palavras, como se elas tivessem sido escritas na véspera. Isso é samba raiz: ancestral, coletivo, eterno. Não é nostalgia de museu — é tradição viva, pulsando nas rodas do Rio, nas escolas de samba, nos botequins e, cada vez mais, nos fones de ouvido de uma nova geração que redescobriu a beleza do samba de raiz.
Cartola: o poeta que construiu a Mangueira
Agenor de Oliveira, o Cartola, nasceu em 1908 no Catete, Rio de Janeiro, e ainda menino se mudou para o Morro da Mangueira — que na época nem era bairro, era morro mesmo, com barracos de madeira e chão de terra batida. Aos 20 anos, Cartola foi um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira, a escola de samba que se tornaria símbolo máximo do carnaval carioca. As cores verde e rosa da escola foram ideia dele, diz a lenda.
Mas a trajetória de Cartola é marcada por um hiato brutal. Depois de algum sucesso nos anos 1930, ele desapareceu do cenário musical. Foram décadas de ostracismo, trabalhando como lavador de carros, pedreiro e vigia. Em 1956, o jornalista Sérgio Porto (o Stanislaw Ponte Preta) o encontrou — literalmente — lavando carros em Ipanema. A volta de Cartola, já aos 66 anos, resultou em quatro álbuns gravados entre 1974 e 1982 que são patrimônio da música brasileira. “As Rosas Não Falam”, “O Mundo É um Moinho”, “Alvorada” e “Preciso Me Encontrar” são obras-primas de simplicidade arrasadora.
Nelson Cavaquinho: a poesia da dor
Se Cartola cantava o amor com elegância e resignação, Nelson Cavaquinho cantava a dor — e fazia isso com uma beleza que só os grandes poetas alcançam. “A Flor e o Espinho”, “Juízo Final”, “Luz Negra” e “Quando Eu Me Chamar Saudade” são composições que tratam de morte, perda e sofrimento com uma profundidade que beira o filosófico. Nelson dizia que só conhecia tristeza e cachaça — e sua obra, de fato, é um inventário de dores humanas universais, transformadas em poesia.
Nelson Cavaquinho frequentava as mesmas rodas que Cartola, Zé Kéti e tantos outros mestres do samba. Diferente de Cartola, que gravou pouco mas com produção cuidadosa, Nelson gravou muito — mas quase sempre em condições precárias, com álbuns de qualidade técnica irregular. Ainda assim, suas composições sobreviveram e são regravadas constantemente. Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Zeca Pagodinho e Marisa Monte são apenas alguns dos artistas que mantiveram o legado de Nelson vivo.
Samba de Roda: a raiz ancestral
Antes do samba urbano do Rio de Janeiro, existia o samba de roda do Recôncavo Baiano. Reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2005, o samba de roda é uma manifestação que remonta ao Brasil colonial, com raízes nas tradições musicais africanas trazidas pelos povos escravizados — particularmente de Angola e do Congo.
No samba de roda, as pessoas formam uma roda, e uma de cada vez dança no centro enquanto as outras cantam, batem palma e tocam instrumentos como o atabaque, o pandeiro e a viola. A umbigada — o toque no umbigo que “convida” a próxima pessoa a entrar na roda — é um gesto que conecta diretamente o samba brasileiro às danças tradicionais banto. O samba de roda é a prova viva de que o samba não é apenas um gênero musical: é uma celebração comunitária, uma forma de resistência cultural que atravessou séculos de opressão e segue viva no Recôncavo Baiano, especialmente em cidades como Santo Amaro e Cachoeira.
O samba raiz tá mais vivo do que nunca
Nos últimos anos, uma nova geração de sambistas tem renovado o interesse pelo samba de raiz. Artistas como Moacyr Luz e o Samba do Trabalhador — roda que acontece toda segunda-feira no Rio há mais de 15 anos —, Teresa Cristina, Moyseis Marques, Alfredo Del-Penho e as jovens revelações que lotam rodas na Lapa e em Vila Isabel mostram que o samba raiz não é peça de museu. É música viva, que se transforma sem perder a essência.
Em 2023, o centenário da Mangueira foi celebrado com shows, exposições e uma profusão de homenagens que mostraram o quanto o legado de Cartola e da Velha Guarda segue inspirando. Em pleno 2026, jovens músicos sampleiam Cartola, misturam samba com beats eletrônicos, montam rodas que viralizam no Instagram e TikTok. A tradição e a inovação, no samba, nunca estiveram em conflito — sempre andaram de mãos dadas. O samba é isso: raiz que vira flor a cada geração.
Cartola escreveu “o mundo é um moinho” — e o mundo girou. Mas o samba raiz, esse moinho não triturou. Poliu. Transformou em joia. E a cada nova roda, a cada nova geração que descobre o samba de Cartola e Nelson Cavaquinho, o moinho continua girando — agora moendo sonhos novos.
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