Um fantasma de pergaminho e tinta
Imagine um livro. Duzentas e quarenta páginas de pergaminho, ricamente ilustradas com plantas que não existem, diagramas astronômicos que não correspondem a nenhum céu conhecido, figuras humanas em banhos verdes conectadas por tubos, e um texto contínuo escrito num alfabeto que ninguém — nem os melhores criptógrafos do mundo, nem os algoritmos mais avançados de inteligência artificial — jamais conseguiu decifrar. Agora multiplique o mistério por seiscentos anos de tentativas frustradas, adicione uma pitada de espionagem renascentista, alquimia medieval e a possibilidade de que o livro inteiro seja uma farsa elaborada — e você terá uma noção aproximada do que é o Manuscrito Voynich.
O volume de 23,5 por 16,2 centímetros repousa hoje na Biblioteca Beinecke de Livros Raros e Manuscritos da Universidade de Yale, sob a cota MS 408. Seu estado de conservação é impressionante — o pergaminho envelheceu graciosamente, as cores das ilustrações mantêm vivacidade, e a tinta do texto misterioso continua nítida como se tivesse sido aplicada ontem. O manuscrito está disponível online, integralmente digitalizado. Qualquer pessoa com conexão à internet pode examinar cada página, cada diagrama, cada palavra ilegível. E ainda assim, depois de um século de estudo intensivo, ninguém conseguiu extrair uma única frase de significado comprovado.
A origem do enigma
O livro leva o nome de Wilfrid Voynich, um livreiro polonês-americano e ex-revolucionário que o adquiriu em 1912 do Colégio Jesuíta de Villa Mondragone, perto de Roma. Mas a história do manuscrito começa muito antes. A análise de radiocarbono realizada em 2009 pela Universidade do Arizona datou o pergaminho entre 1404 e 1438, com 95% de confiança — um período que coincide com o auge do Renascimento italiano. A tinta foi analisada e é compatível com os pigmentos da época.
O primeiro proprietário confirmado do manuscrito foi Georg Baresch, um alquimista de Praga que no século XVII já estava frustrado com sua incapacidade de decifrá-lo. Ele o enviou a Athanasius Kircher, jesuíta e polímata que havia afirmado ter decifrado os hieróglifos egípcios (na verdade, Kircher estava redondamente errado, mas na época sua reputação era a de um gênio universal). Kircher também falhou. O manuscrito passou pelas mãos do próprio imperador Rodolfo II do Sacro Império Romano-Germânico — que, segundo a lenda, pagou 600 ducados de ouro pelo livro, acreditando tratar-se de uma obra de Roger Bacon, o monge-filósofo do século XIII.
Voynich passou o resto da vida tentando provar que o manuscrito era uma obra científica codificada de Bacon. Morreu sem conseguir. Sua esposa, a escritora Ethel Lilian Voynich, herdou o manuscrito. Após sua morte em 1960, o livro foi vendido ao livreiro Hans Kraus, que o doou a Yale em 1969. E desde que o manuscrito se tornou público, o mundo não parou de tentar lê-lo.
O que está nas páginas
O manuscrito é convencionalmente dividido em seções temáticas baseadas nas ilustrações. A seção botânica ocupa cerca de metade do volume e contém desenhos detalhados de plantas — algumas reconhecíveis (girassol, samambaia), a maioria completamente inventada ou alterada. As raízes, caules, folhas e flores foram desenhadas com competência artística, sugerindo que o autor conhecia ilustração botânica. Mas as combinações de características são impossíveis: folhas de uma espécie enxertadas no caule de outra, flores de estruturas que não existem na natureza, raízes que se transformam em criaturas.
A seção astronômica/astrológica apresenta diagramas circulares com símbolos zodiacais e figuras que lembram constelações — mas que não correspondem a nenhum mapa celeste conhecido. A seção balneológica é a mais famosa e perturbadora: dezenas de figuras femininas nuas, imersas em piscinas verdes interconectadas por um complexo sistema de tubulações, frequentemente segurando objetos que podem ser flores, instrumentos ou símbolos. O caráter da seção tem sido interpretado como alquímico, medicinal, ginecológico ou puramente simbólico — sem consenso. A seção farmacêutica mostra recipientes, frascos e raízes organizadas como numa farmacopeia medieval. E a seção de receitas — páginas de texto contínuo com marcadores em forma de estrela — parece ser onde o “conteúdo” do livro está concentrado, mas é também a parte mais impenetrável.
As grandes tentativas de decifração
O texto do Voynich — aproximadamente 35.000 palavras escritas num alfabeto de 25 a 30 caracteres únicos — obedece a padrões estatísticos que se assemelham a línguas naturais. A Lei de Zipf, que descreve a distribuição de frequência de palavras em qualquer idioma humano, é satisfeita pelo Voynich com alta precisão — um argumento forte contra a hipótese de que o texto seja aleatório. As palavras tendem a ser curtas (quatro a seis caracteres), repetem-se com padrões previsíveis e obedecem a restrições fonotáticas — certas combinações de caracteres aparecem com frequência, outras nunca, como acontece em línguas reais.
Em 2014, o linguista Stephen Bax afirmou ter identificado nomes próprios — incluindo a palavra para a estrela Aldebaran e a constelação de Touro — usando um método comparativo com manuscritos medievais. Sua abordagem, baseada na correspondência entre ilustrações e texto em plantas identificáveis, foi a mais promissora em décadas, mas não produziu uma decifração completa. Em 2017, o pesquisador Nicholas Gibbs publicou um artigo sugerindo que o Voynich era um manual de saúde feminina com abreviações latinas — teoria rapidamente refutada pela comunidade acadêmica por inconsistências metodológicas. Em 2019, Gerard Cheshire alegou ter decifrado o manuscrito como sendo escrito em uma forma de proto-romance — sua publicação no periódico Romance Studies foi retirada após críticas devastadoras. Em 2023, uma equipe da Universidade de Alberta aplicou inteligência artificial ao problema e concluiu que o texto provavelmente codifica uma língua semítica — hebraico ou aramaico —, mas a tradução automática resultante produziu frases sem sentido gramatical.
O padrão é claro: a cada poucos anos, alguém anuncia a decifração definitiva. A mídia repercute. Os especialistas refutam. E o manuscrito continua ilegível.
Hoax ou código real?
A hipótese da farsa — o Voynich não passa de um livro de absurdos, criado para enganar algum nobre crédulo — tem defensores respeitáveis. Em 2004, o cientista da computação Gordon Rugg demonstrou que o texto do Voynich poderia ter sido gerado com uma técnica do século XVI chamada grade de Cardano: uma tabela de sílabas combinada com um gabarito perfurado que, ao ser movido sobre a tabela, produz palavras com padrões estatísticos que imitam uma língua real. Rugg gerou textos sintéticos com propriedades estatísticas muito similares às do Voynich usando apenas esta técnica, papel, tinta e algumas horas de trabalho.
Mas a hipótese da farsa enfrenta problemas. O manuscrito é um objeto caríssimo para ser uma brincadeira. O pergaminho de vitela usado exigiu o sacrifício de dezenas de bezerros. As ilustrações foram feitas por alguém com treinamento artístico — a mão é segura, a composição é cuidadosa, os pigmentos foram preparados com conhecimento químico. O texto é longo demais, consistente demais e caro demais para ter sido produzido como golpe único. E se o objetivo era enganar um comprador rico — por que não se conhece nenhuma tentativa de venda por um preço exorbitante? Por que o manuscrito teria passado décadas nas mãos de alquimistas como Baresch, que o estudavam genuinamente, antes de aparecer no mercado?
O Voynich ocupa um território liminar entre o código indecifrável e a farsa perfeita. E até que alguém — ou algum algoritmo — consiga provar o contrário, ele permanecerá como uma das criações mais enigmáticas da mente humana: um livro que existe para ser lido, mas que se recusa a falar.
Fontes
- Biblioteca Beinecke, Universidade de Yale — MS 408 digitalizado e metadados
- Análise de radiocarbono — Universidade do Arizona (2009), publicada no relatório “Radiocarbon Dating of the Voynich Manuscript”
- Reddy, Sravana & Knight, Kevin — “What We Know About The Voynich Manuscript” — Universidade do Sul da Califórnia (2011)
- Rugg, Gordon — “The Voynich Manuscript: An Elegant Enigma” — artigo revisado por pares (2004)
- Bax, Stephen — “A Proposed Partial Decoding of the Voynich Script” (2014)
- Montemurro, Marcelo & Zanette, Damián — “Keywords and Co-Occurrence Patterns in the Voynich Manuscript” — PLOS ONE (2013)
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