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  • O Círculo de Fogo Que Visitou Tutmés III

    O Círculo de Fogo Que Visitou Tutmés III

    O Círculo de Fogo Que Visitou Tutmés III

    Na sexta hora do dia, no terceiro mês do inverno do ano 22 do reinado de Tutmés III, os escribas da Casa da Vida teriam erguido os olhos dos rolos de papiro e encontrado no céu algo que não cabia em nenhuma fórmula do Egito: um círculo de fogo, sem cabeça, avançando em silêncio. Tinha o comprimento de uma vara e a largura de outra; a respiração de sua boca exalava um odor insuportável. Depois de algum tempo, subiu em direção ao sul — e desapareceu. A cena tem a nitidez de uma testemunha e a fragilidade de um sonho. Para a ufologia, é o mais antigo relato de avistamento do mundo; para muitos egiptólogos, uma invenção do século XX. Entre uma coisa e outra, três mil e quinhentos anos de silêncio.

    Um papiro que ninguém mais viu

    A história do documento começa em 1934, numa loja de antiguidades do Cairo. Alberto Tulli, diretor da seção egípcia dos Museus Vaticanos, teria encontrado ali um papiro em escrita hierática e feito uma cópia cuidadosa — ou, em algumas versões, comprado o original, que depois se perdeu. Anos mais tarde, o texto chegou às mãos do príncipe Boris de Rachewiltz, que o publicou em 1953. O relato situa o episódio no ano 22 do reinado de Tutmés III, faraó da XVIII dinastia que governou entre aproximadamente 1479 e 1425 antes de Cristo, e descreve, com um laconismo quase burocrático, a aparição dos círculos de fogo, o odor insuportável e a queda de peixes e aves do céu. O texto, atribuído aos escribas da Casa da Vida, tem a forma de uma ata: data, hora, lugar, testemunhas, desfecho. É precisamente essa frieza que o tornou célebre.

    O problema começa aí. O original nunca foi encontrado. Ninguém o viu depois de Tulli: não há fotografia, não há fac-símile, não há número de catálogo, não há testemunha além da própria narrativa. Os anais oficiais do reinado, gravados no templo de Karnak, celebram campanhas militares, tributos e oferendas — nenhuma linha menciona círculos de fogo. E os estudiosos que examinaram o texto apontam outra inquietação: a tradução divulgada em 1953 chegou ao mundo poucos anos depois da onda de discos voadores que varreu os Estados Unidos a partir de 1947, e o episódio caiu como uma luva na ufologia nascente. O documento que deveria provar o contato no Egito antigo nasceu, convenientemente, na era dourada do avistamento moderno.

    O que o texto diz — e o que ele não diz

    Mesmo entre os que aceitam a autenticidade, o texto resiste à leitura simples. As versões publicadas divergem em detalhes essenciais: o número de círculos, a duração do fenômeno, o desfecho. Alguns leem “círculos de fogo”; outros, “discos de luz”. A passagem dos peixes e voláteis — criaturas que teriam caído do céu com o odor — sugere aos leitores modernos a hipótese de um fenômeno meteorológico extremo, talvez uma tromba d’água; para os entusiastas, é a prova de que algo muito concreto passou por ali. O texto, porém, não decide: como todo documento sem original, ele diz exatamente aquilo que o leitor precisa que ele diga. Não há como conferir a caligrafia, a data, o contexto de achado, nem sequer a existência do antiquário. O papiro de Tulli é, do ponto de vista documental, uma voz sem rosto.

    Foi sobre essa fundação incerta que se ergueu a pedra angular da ufologia egípcia. O relato aparece em dezenas de livros, documentários e sites como o primeiro avistamento documentado da história, citado ao lado das pirâmides e da Esfinge como indício de que o Egito teria recebido visitas do alto. Erich von Däniken e a literatura dos deuses astronautas o repetem como evidência. A ironia é amarga: a egiptologia moderna, que lê hieróglifos com precisão milimétrica e reconstrói dinastias inteiras a partir de fragmentos de pedra, não consegue dizer nada sobre um texto que não pode examinar — e a ausência de prova passou a funcionar, no imaginário popular, como uma prova de conspiração.

    O que está em jogo

    Se o relato for autêntico, o Egito de Tutmés III teria registrado um fenômeno aéreo inexplicável três mil e quinhentos anos antes de Roswell — e o documento valeria como o mais antigo arquivo de um céu que não obedece às nossas categorias. Se não for, teremos diante de nós um caso de estudo quase perfeito: a demonstração de que uma única narrativa, sem suporte material, pode sustentar uma indústria inteira de mistério durante setenta anos. Em ambos os casos, o papiro de Tulli é um espelho — e espelhos não mentem, apenas refletem. A pergunta que ele força não é sobre o Egito; é sobre o nosso método de acreditar.

    Há ainda um terceiro caminho, menos frequentado. O Egito observou o céu com uma disciplina que ainda nos espanta: calendários estelares, relógios decanais, tetos astronômicos, uma literatura inteira de presságios celestes. Não precisamos de visitantes para encontrar espanto nessa civilização — ela já o cultivava todas as noites, com a paciência de quem lê um livro sem pressa. Talvez o círculo de fogo nunca tenha sobrevoado Tebas. Mas a vontade de que tenha — a vontade de que o passado guarde um sinal para o nosso tempo — essa é real, e não veio de nenhum papiro.

    A pergunta que permanece

    O original, se existiu, não está em lugar nenhum. A cópia de Tulli, se foi fiel, não pode ser conferida. Resta a pergunta, e ela é mais antiga que o próprio documento: o que estamos contemplando, afinal — um evento sobre o Egito de Tutmés III, ou o nosso próprio desejo, três mil e quinhentos anos depois, de que alguém tenha visto, antes de nós, exatamente aquilo que queremos ver? Talvez o círculo de fogo nunca tenha visitado o Egito. Mas algo nos visita todas as vezes que abrimos um livro de mistérios: a esperança de que o passado, em algum lugar, tenha olhado para o céu como nós olhamos.