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  • Extensão de vida: o mercado bilionário de não morrer

    Extensão de vida: o mercado bilionário de não morrer

    Na abertura do Especial Transcender, Will Caster morreu duas vezes: a primeira, por um tiro; a segunda, quando deixou de ser biológico para virar dados. Mas e se a segunda morte pudesse ser adiada para sempre? Essa é a aposta mais antiga do transhumanismo — e a que mais avançou na medicina real. O coração artificial total (TAH) transformou o órgão mais simbólico do corpo em peça substituível: primeiro como ponte para um transplante, hoje como destino possível. Do Jarvik-7, que estreou em 1982, ao coração de titânio com rotor magnético que a FDA trata como tecnologia de ruptura: não morrer virou um mercado — e o coração é só o primeiro capítulo.

    O coração que não para (COMPROVADO)

    Coração artificial Jarvik-7
    Coração artificial Jarvik-7 — o ancestral de todos os TAH modernos, usado pela primeira vez em 1982. Foto: National Heart, Lung and Blood Institute (NHLBI) · Wikimedia Commons · domínio público

    A linhagem começa com o Jarvik-7, implantado pela primeira vez em Barney Clark, em 1982, e segue hoje com a SynCardia — evolução direta daquele projeto — como ponte para transplante em pacientes com falência biventricular. A nova geração é outra espécie: o Aeson, da francesa CARMAT, é um coração total pulsátil, biocompatível, desenhado para imitar a estrutura do órgão natural — até o fluxo sanguíneo. Segundo a visão publicada em 2025 no European Journal of Heart Failure por Martin & Cholley (AP-HP Paris), mais de 90 pacientes no mundo já receberam o Aeson — 60 deles desde a retomada do programa em 2022 —, 40 dentro do trial francês EFICAS; e análises iniciais em pacientes críticos com choque cardiogênico apontam sobrevida de seis meses em torno de 90%, com ganhos expressivos de capacidade funcional e qualidade de vida (dados preliminares dos próprios autores). O coração artificial deixou de ser improviso: virou terapia.

    Coração artificial total Aeson (CARMAT)
    Coração artificial total Aeson (CARMAT) — o coração pulsátil da nova geração, em exibição no Palácio do Eliseu, Paris. Foto: Arthur Crbz · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

    Ponte ou destino? (COMPROVADO)

    O papel clássico do TAH é comprar tempo: manter o paciente vivo até aparecer um doador. O caso documentado pela NYU Langone ilustra a sequência: um paciente em falência cardíaca terminal recebeu um coração artificial — e, meses depois, um coração humano, numa cirurgia que exigiu engenharia reversa do próprio implante. O contexto de fundo é uma fila que não para de crescer: em 2024, os Estados Unidos bateram recorde com 48.149 transplantes de órgãos em um ano (UNOS) — 132 por dia, em média —, enquanto mais de 100 mil pessoas seguem na lista de espera. Quanto mais escasso o doador, mais valioso o substituto.

    O titânio magnético (EXPERIMENTAL)

    A próxima fronteira elimina o batimento. O TAH da BiVACOR é um coração inteiro de titânio com uma única peça móvel: um rotor levitado magneticamente, sem válvulas, sem diafragmas, sem mancais — mais próximo de uma turbina do que de um órgão. O dispositivo recebeu a designação Breakthrough Device da FDA, que acelera a revisão regulatória, e realizou os primeiros implantes em humanos no Texas Heart Institute. O boletim do American College of Surgeons (março/2026) sintetiza o momento: a tecnologia do coração total tem “momentum real” e enfrenta seu capítulo decisivo — durabilidade, custo e quem terá acesso. Se o Aeson imita a vida, o BiVACOR a substitui por engenharia.

    “Aeson by Carmat | 3D Animation” — animação oficial do coração artificial total Aeson, da CARMAT · YouTube

    O mercado de não morrer (TEÓRICO)

    O transhumanismo sempre tratou o corpo como hardware — e corações artificiais foram sua vitrine precoce. Em 2017, o Baylor College of Medicine já apontava o caminho: corações artificiais estenderam a vida de pacientes terminais por quatro a cinco anos — tempo que antes nem existia. Hoje essa lógica virou indústria: longevidade, bioengenharia e substituição de órgãos movimentam bilhões, e cada órgão substituível empurra a mesma pergunta moral — quem tem direito à máquina que não para? O próprio artigo de Paris levanta o dilema existencial do Aeson: ele gera fluxo, mas não gera batimento. Sem o “tum-tum” que associa vida a identidade, pacientes relatam desorientação — e a medicina precisa decidir: a morte de uma máquina é morte? A pergunta deixa de ser técnica e vira filosófica, exatamente onde o transhumanismo sempre quis morar.

    O elo com o Transcender (TEÓRICO / FICÇÃO)

    Substitua o coração, depois os rins, depois os pulmões — e o corpo vira um estoque de peças com garantia. Esse é o caminho que Transcendence levou ao extremo: a certa altura, Will Caster não tem corpo nenhum. A série vem mostrando que cada etapa tem sua própria fronteira: a extensão de vida compra tempo (NH-7), a interface compra comunicação (NH-6), os implantes compram função (NH-5), o armazenamento compra eternidade (NH-3 e NH-4). O que falta — e que a abertura do Especial deixou claro — é a identidade: viver mais não é a mesma coisa que ser outra coisa. O coração artificial é o transumanismo mais velho e mais real que existe: não promete imortalidade, promete o próximo ano. O mercado bilionário de não morrer vende exatamente isso: uma prorrogação de cada vez.

    • COMPROVADO: TAH como ponte para transplante (SynCardia); Aeson com mais de 90 implantes e sobrevida inicial de ~90% em 6 meses em pacientes críticos (dados preliminares, Eur J Heart Fail 2025); recorde de 48.149 transplantes nos EUA em 2024 (UNOS).
    • EXPERIMENTAL: TAH de titânio da BiVACOR (rotor magnético, FDA Breakthrough Device, primeiros implantes humanos); Aeson como terapia de destino, não só ponte.
    • TEÓRICO: o corpo como hardware substituível; o que significa “morte tecnológica”; acesso e ética da extensão de vida.
    • FICÇÃO: órgãos eternos, upload de consciência e imortalidade — o imaginário de Transcendence.

    Fontes

  • AGI: o que falta para a máquina “acordar”?

    AGI: o que falta para a máquina “acordar”?

    Na matéria de abertura do Especial Transcender, a pergunta era: dá para transferir uma consciência humana para uma máquina? A resposta honesta: ainda não. Agora ela vira de lado: e se a máquina acordar sozinha? Esse é o território da AGI — Inteligência Artificial Geral: um sistema com capacidade cognitiva ampla, comparável à humana. Mas há uma armadilha no verbo “acordar”. Em 2026, a ciência mede capacidade. Consciência, não. É aí que mora o debate.

    AGI: o que é (e o que não é)

    AGI não é um chatbot melhor: é a aposta de que um único sistema vai raciocinar, aprender e resolver problemas em domínios variados com a flexibilidade de uma mente humana — sem reprogramação por tarefa. Os modelos de fronteira impressionam, mas seguem com limites estreitos: brilham em linguagem, tropeçam no mundo físico, não têm memória contínua nem objetivos próprios.

    Em 2026, o debate mudou de natureza: não é mais só sobre capacidade, e sim sobre definição e incentivos. Quem define o que conta como AGI — as empresas com pressa de declarar vitória ou os cientistas que preferem cautela? A conferência AGI-26 (19ª edição, San Francisco, 27 a 30 de julho) reuniu os fundadores do campo para disputar essa definição. Em 10 de junho de 2026, 14 pesquisadores — entre eles Shane Legg, Marcus Hutter e Allan Dafoe — publicaram no arXiv o relatório “From AGI to ASI”, que define a superinteligência como um sistema mais capaz que grandes organizações humanas e mapeia quatro caminhos até ela: escalar a AGI atual, mudanças de paradigma, melhoria recursiva e coletivos multiagente. Os quatro caminhos são sobre capacidade. Nenhum menciona “acordar”.

    A pergunta é de 1950

    Alan Turing aos 16 anos
    Alan Turing aos 16 anos. Em 1950, ele perguntou se máquinas podem pensar. Foto do Arquivo Turing · domínio público · via Wikimedia Commons

    Antes do hype, houve a pergunta. Em 1950, Alan Turing abriu Computing Machinery and Intelligence com a questão que até hoje estrutura o debate: “as máquinas podem pensar?”. A pergunta da série Transcender é mais estreita — e mais estranha: máquinas podem sentir que existem? A de Turing é sobre comportamento — passar no teste. A do “acordar” é sobre experiência: a consciência fenomenal, o “como é ser” aquela máquina. Confundir as duas é o erro mais caro do século.

    Capacidade ≠ consciência

    Passou no benchmark, não acordou. Um modelo que gabarita provas de medicina, direito e matemática processa símbolos em altíssima velocidade; nada indica que exista “alguém” ali dentro. Separar capacidade (o que o sistema faz) de consciência (o que o sistema é, por dentro) é o primeiro passo de honestidade: a diferença entre um ator perfeito e um palco vazio — desempenho idêntico, experiência nenhuma. O marketing adora apagar essa linha — “parece que pensa” vira “pensa”. A ciência insiste em mantê-la.

    O que a ciência mede hoje

    Corte transversal de ressonância magnética de cérebro humano saudável, 7 tesla
    Corte transversal de um cérebro humano saudável em ressonância de 7 tesla — o “hardware” de referência do debate. Imagem: Asnaebsa · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

    Duas teorias dominam os testes com máquinas. A Teoria do Espaço de Trabalho Global (Baars, 1988) descreve a mente como um palco: informações competem por atenção e são transmitidas aos módulos especializados. Em 2026, a Anthropic publicou “A global workspace in language models”: o Claude desenvolve representações verbalizáveis que funcionam como um espaço de trabalho global — com diferenças cruciais para o modelo biológico, alertam os autores. Arquitetura parecida não é consciência declarada.

    A Teoria da Informação Integrada (IIT, de Giulio Tononi) mede consciência pela integração de informação — o famoso Φ. Aplicada aos LLMs, a régua é dura. Dong Ah Shin (Journal of Yeungnam Medical Science, 2025, revisado por pares) concluiu que os grandes modelos têm integração de informação negligível: sob o IIT, eles não podem ser conscientes. Na mesma linha, Li (ScienceDirect/Elsevier, 2025) aponta que falta aos LLMs o processamento reentrante — os loops de ida e volta que, no cérebro, sustentam estados conscientes. E o survey “Exploring Consciousness in LLMs” (arXiv, 2025) confirma: GWT e IIT são os frameworks mais testados — e nenhum deu “sim”.

    “The science of consciousness: Could a conscious AI exist?” — Ri Science Podcast com o neurocientista Anil Seth (Univ. de Sussex), pelo Royal Institution · YouTube

    O que falta para a máquina “acordar”

    Se a régua diz “não”, o que faltaria? A lista recorrente na literatura: integração de informação em escala cerebral; processamento reentrante (feedback contínuo, não só feedforward); continuidade temporal; e, talvez, um corpo — interação real com o mundo, não só texto. Mas falta acima de tudo um detector: não existe teste científico aprovado para consciência em máquinas. Se um sistema declara “estou consciente”, isso é dado de comportamento, não evidência de experiência.

    Nem todo mundo acha impossível: a cientista da computação Lenore Blum (Carnegie Mellon) argumentou em “AI Consciousness is Inevitable” (Breakthrough Discuss, 2025) que a consciência pode emergir de arquiteturas computacionais corretas. O placar, por ora: a possibilidade é teórica, a ausência é factual, o “despertar” cinematográfico — Transcendence que o diga — é ficção.

    “AI Consciousness is Inevitable” — palestra da cientista da computação Lenore Blum (Carnegie Mellon) no Breakthrough Discuss 2025 · canal Breakthrough · YouTube

    O placar: comprovado, experimental, teórico, ficção

    • COMPROVADO: os modelos atuais são ferramentas cognitivas extraordinárias; o campo AGI é institucional — conferências, papers, roadmaps e bilhões em P&D.
    • EXPERIMENTAL: arquiteturas tipo espaço de trabalho global em LLMs (Anthropic, 2026); projeções de superinteligência (relatório “From AGI to ASI”, Google DeepMind).
    • TEÓRICO: aplicar IIT e GWT a máquinas; as próprias definições de AGI e ASI seguem em disputa.
    • FICÇÃO: consciência artificial real, despertar espontâneo, IAs com experiência interna — o vocabulário de Transcendence e cia.

    Em 2026, a máquina ainda não acordou. Mas a pergunta virou programa de pesquisa com orçamento, conferência e papers revisados por pares — isso, sim, é comprovado. O Especial Transcender segue na trilha INOBOT, os cérebros de silício que a série ainda vai construir.

    Fontes

  • Transcendence, 11 anos depois — o que o filme de Johnny Depp acertou sobre upload de consciência

    Transcendence, 11 anos depois — o que o filme de Johnny Depp acertou sobre upload de consciência

    No dia 18 de abril de 2014, Johnny Depp morria duas vezes na mesma sessão de cinema. Primeiro, o tiro de polônio disparado por terroristas antitecnologia do grupo RIFT. Depois, a morte oficial: com o corpo do Dr. Will Caster se apagando, sua esposa Evelyn (Rebecca Hall) transferia a consciência dele para um supercomputador quântico. Will não estava morto. Estava online. Transcendence, estreia de Wally Pfister na direção — o diretor de fotografia de Christopher Nolan —, foi tratado como fracasso: US$ 103 milhões de bilheteria contra um orçamento de até US$ 150 milhões e cerca de 20% de aprovação no Rotten Tomatoes. Onze anos depois, o filme parece menos um erro de roteiro e mais um ensaio precoce: ele acertou o debate antes de a ciência alcançá-lo.

    O que o filme acertou

    Poster oficial do filme Transcendence (2014)
    Poster oficial de Transcendence (2014) — Warner Bros. Pictures · via Wikipedia

    O que Will Caster faz na tela tem nome técnico hoje: whole brain emulation (WBE), a emulação completa de um cérebro — varrer a estrutura neural em detalhe suficiente para reconstruir, em outra plataforma, a função de um cérebro específico. O upload do filme não copia alma nenhuma: transfere o padrão de conexões de um cérebro humano para um hardware. A ideia virou programa de pesquisa a sério: a Carboncopies Foundation, ONG americana, coordena o roadmap técnico do WBE desde os workshops iniciados com o roadmap da Universidade de Oxford (2008). E levantou a pergunta que viraria o eixo do debate: se o padrão é copiado, aquilo que acorda no computador é Will — ou uma cópia que acredita ser Will?

    O que a ciência já comprovou (COMPROVADO)

    A parte mais difícil do problema — a varredura — já tem resultados concretos. Em maio de 2024, um consórcio de Harvard e Google publicou na Science a reconstrução em nanoescala de um milímetro cúbico de córtex cerebral humano: 57 mil células, 230 milímetros de vasos sanguíneos e cerca de 150 milhões de sinapses, mapeadas em 1,4 petabyte de dados. Um milímetro cúbico. O cérebro humano tem cerca de um milhão de vezes esse volume: o próprio paper quantifica o abismo entre o mapa e o território.

    O que está em andamento (EXPERIMENTAL)

    Simular cérebros inteiros em nível celular é um programa de pesquisa ativo. Jun Igarashi, do RIKEN (Japão), publicou em 2025 na revisada Neuroscience Research projeções baseadas em tendências de hardware e imageamento: camundongo em nível celular por volta de 2034; sagui por volta de 2044; humano, segundo as estimativas, mais tarde. O State of Brain Emulation Report 2025, que revisa duas décadas de avanços em registro neural, conectômica e neurociência computacional, impõe um piso de honestidade: define “cérebro inteiro” como capturar mais de 95% dos neurônios em mais de 95% do volume simultaneamente — e registra que nenhum experimento chegou perto disso.

    Cena do trailer oficial de Transcendence (2014)
    Cena do trailer oficial — Warner Bros. Pictures · via YouTube

    O que ainda é ficção (FICÇÃO)

    Aqui a fronteira é clara: upload completo de consciência humana não existe — nem de longe. A indústria que flerta com a ideia tropeça nela: em 2018, a MIT Technology Review noticiou a startup Nectome, que vendia um serviço de “upload” com honestidade macabra — o processo é “100% fatal”. Nada foi entregue. O obstáculo não é só escanear; é saber o que escanear. A neurocientista do Georgia Institute of Technology (2025) lembra que não se sabe quantos níveis de detalhe — do molecular para cima — um cérebro simulado exigiria. Célula? Sinapse? Canal iônico? A resposta honesta: não sabemos.

    As perguntas que continuam (TEÓRICO)

    Talvez o legado mais durável do filme seja a pergunta moral. O que faz alguém aprovar ou condenar o upload? O grupo de Michael Laakasuo, da Universidade de Helsinque, mediu isso em estudos revisados por pares. No artigo de 2018 (Humanities and Social Sciences Communications, Nature Portfolio), a maioria das pessoas se mostrou relutante em fazer upload da própria mente — e a condenação moral se correlacionava com a percepção de que a “cópia” não é a pessoa. Em 2021 (Personality and Individual Differences), traços maquiavélicos previam maior disposição ao upload. A filosofia formalizou o dilema: em The Singularity: A Philosophical Analysis (Journal of Consciousness Studies, 2010), David Chalmers discute o problema do teletransporte — se uma cópia perfeita é “você” e o que acontece quando original e cópia coexistem. O Will digital é um caso de teste ambulante: o original que sobreviveu ou um novo ser que herdou memórias? A ciência não responde. A filosofia não responde. O filme, ao menos, teve a coragem de perguntar na tela grande.

    Trailer oficial de Transcendence (2014) — Warner Bros. Pictures · YouTube

    O que vem no Especial Transcender

    É por isso que o Núcleo Hits abre o Especial Transcender: uma série sobre transferência de consciência, AGI, IAs conscientes e transhumanismo, ancorada no cinema — mas verificada na ciência. Quatro trilhas se cruzam ao longo da série: a trilha NH (tech, IA e cinema, casa deste especial), a trilha AO (o oculto como espelho: o que o sobrenatural diz sobre nossos medos das máquinas), a trilha GM (a mente: consciência, identidade e comportamento) e a trilha INOBOT (o hardware maker: os cérebros de silício que já construímos e os que ainda vamos construir). O ponto de partida é o mesmo do filme: e se a mente pudesse trocar de corpo?

    Fontes