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  • O Repente e a Poesia Improvisada: O Rap Antes do Rap

    O Repente e a Poesia Improvisada: O Rap Antes do Rap

    Muito antes de os primeiros MCs do Bronx subirem num palco improvisado com dois toca-discos e um microfone, o sertão nordestino já pulsava com batalhas de improviso. O repente — e sua variante mais acelerada e urbana, a embolada — é essencialmente uma batalha de rimas que vem sendo travada há mais de um século sob o sol impiedoso do semiárido brasileiro. Dois violeiros se encaram diante de uma plateia de trabalhadores rurais. Um lança um verso em métrica rigorosa. O outro responde, na hora, no mesmo ritmo, com a mesma rima, sem hesitar. É freestyle. É slam poetry. É jazz scat. É anterior a todos eles — e a maioria dos brasileiros nunca fez essa conexão.

    A cantoria de viola — a forma mais tradicional do repente — segue regras tão rigorosas quanto qualquer forma poética erudita europeia. Os cantadores precisam dominar dezenas de modalidades métricas diferentes: sextilhas (estrofes de seis versos), décimas (dez versos, a mais nobre e difícil), martelos agalopados (ritmo acelerado para temas heroicos), galopes à beira-mar (andamento mais lento e contemplativo). Cada uma dessas modalidades tem sua própria cadência, suas próprias restrições de rima, suas próprias convenções temáticas. E, ainda assim, todo o conteúdo é criado no exato momento da performance, diante de uma plateia que conhece as regras tão bem quanto os poetas e não perdoa um erro de métrica ou uma rima forçada. Ivanildo Vila Nova, pernambucano de 80 anos e um dos maiores repentistas vivos do Brasil, compara o improviso a “pensar em voz alta com métrica e rima”. Não há ensaio. Não há segunda chance. Não há “volta e corrige”. A resposta tem que vir no compasso seguinte — ou o silêncio decreta a derrota. E a plateia vaia.

    A embolada é o primo urbano e acelerado do repente. Enquanto a cantoria de viola é frequentemente associada ao ambiente rural, às feiras e aos festejos de São João do interior, a embolada migrou para as cidades e trocou a viola pelo pandeiro — e acelerou o andamento até o limite da inteligibilidade humana. Popularizada nacionalmente por duplas como Caju e Castanha, pernambucanos que se tornaram presença constante na televisão brasileira nos anos 1990 e 2000, a embolada é uma torrente de palavras em alta velocidade que exige virtuosismo técnico e agilidade mental sobre-humanas. Caju e Castanha, com seu vozeirão e seu pandeiro, mostravam que o improviso nordestino não era coisa de museu folclórico — era entretenimento popular de primeiríssima qualidade, capaz de lotar auditórios, parar feiras e fazer qualquer apresentador de TV ficar boquiaberto com a velocidade e a inteligência das respostas.

    As semelhanças estruturais entre o repente e o rap são tão evidentes que chega a surpreender que a cultura brasileira tenha demorado tanto para explicitamente conectá-los. Ambos são formas de poesia performática baseadas em métrica rigorosa, rima elaborada e competição direta. Ambos surgiram como voz artística de comunidades marginalizadas — o sertanejo pobre e o jovem negro periférico. Ambos funcionam como crônica social imediata: o que aconteceu na feira, a última injustiça do patrão, a política local, a fofoca da vila, tudo vira verso. A diferença principal é tecnológica e instrumental: onde o MC tem um beat eletrônico ou sampleado, o repentista tem a viola de dez cordas; onde o rapper tem uma base produzida em software, o embolador tem o pandeiro e a força dos pulmões. Mas o gesto fundamental é idêntico: a palavra improvisada como afirmação de presença e inteligência no mundo.

    O slam poetry contemporâneo, fenômeno global que chegou ao Brasil nos anos 2010, é o elo que faltava para tornar visível essa genealogia oculta. A FLUP (Festa Literária das Periferias), realizada anualmente no Rio de Janeiro, e o Slam da Guilhermina, em São Paulo — um dos maiores slams do mundo em público —, criaram espaços onde as tradições do repente, do rap e da poesia falada contemporânea se encontram e se reconhecem. Nesses encontros, jovens poetas negros e periféricos frequentemente descobrem que o improviso que praticam tem raízes muito mais profundas do que o Bronx dos anos 1970 — raízes que passam pelo sertão nordestino, pelos griots da África Ocidental (contadores de histórias que improvisavam sobre acontecimentos da comunidade), pelos trovadores medievais da Europa, pelos repentistas cubanos que improvisam décimas ao som do tres. O improviso, no fim das contas, é uma das experiências humanas mais universais e antigas que existem.

    O documentário “O Fim do Sem Fim” (2001), dirigido por Cao Guimarães e Beto Magalhães, capturou esse universo com rara sensibilidade. O filme percorre o interior do Nordeste atrás de repentistas e cantadores cujas tradições estão desaparecendo — não por falta de talento ou relevância, mas por falta de registro, de apoio institucional, de políticas públicas de preservação. “Cartola — Música Para os Olhos” (2007), de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, embora centrado no samba, compartilha a mesma urgência documental: registrar vozes que o Brasil insiste em esquecer enquanto elas ainda podem ser ouvidas. Do partido alto carioca ao freestyle de rua, do repente nordestino ao jazz scat, dos griots do Mali às batalhas de slam de Chicago — a capacidade de criar, no calor do momento, algo que faça sentido rítmico e poético parece estar inscrita no que significa ser humano. Onde houver dois seres humanos com algo a dizer, haverá alguém rimando.

    Fontes

  • Repente e Embolada: A Arte do Improviso que Sobrevive no Nordeste

    Repente e Embolada: A Arte do Improviso que Sobrevive no Nordeste

    Imagine dois poetas, viola em punho, trocando versos improvisados na hora — com rima, métrica e melodia — enquanto uma plateia atenta reage a cada dito espirituoso como se fosse um gol num clássico de futebol. Isso não é uma cena do passado: é o repente, uma das tradições culturais mais impressionantes do Brasil, que segue vivo e relevante no Nordeste do século XXI. Enquanto o mundo todo fala de inteligência artificial e algoritmos criativos, o sertão nordestino pratica há séculos uma forma de criatividade em tempo real que nenhuma máquina conseguiu replicar.

    O que é repente (ou cantoria)?

    Repente — ou cantoria — é a arte do improviso poético cantado, tradicional do Nordeste brasileiro. Dois cantadores (ou mais, em desafios) alternam versos seguindo regras rígidas de rima, métrica e estrutura poética. Cada “gênero” de repente tem suas regras próprias: a sextilha (estrofe de seis versos), a décima (dez versos, típica do martelo agalopado), o galope à beira-mar, o mourão — todos exigindo do cantador domínio absoluto da forma e capacidade de criar conteúdo instantaneamente.

    A cantoria nordestina tem raízes no trovadorismo ibérico medieval, mas se desenvolveu de forma única no sertão brasileiro, misturando tradições portuguesas com influências indígenas e africanas. O instrumento central é a viola — não a nordestina de dez cordas, mas a viola caipira ou a viola sertaneja — embora muitos repentistas também se apresentem apenas com a voz.

    Os mestres do improviso

    Pinto do Monteiro (1895-1990), paraibano, é considerado por muitos o maior repentista de todos os tempos. Sua capacidade de improvisação era lendária — contam que certa vez cantou uma noite inteira sem repetir um único verso. Seus duelos com outro gigante, o cearense Cego Aderaldo, são parte do folclore do repente nordestino.

    Outros nomes fundamentais: Lourival Batista (1915-1992), pernambucano, mestre da sátira e do humor; Oliveira de Panelas, paraibano que segue em atividade e é uma das maiores referências vivas do repente; Ivanildo Vila Nova, pernambucano que modernizou o repente e o levou para o rádio e a TV; e Zé Ramalho, que começou como repentista antes de migrar para o rock e a MPB com sua voz grave e poesia apocalíptica.

    No repente contemporâneo, destaca-se a presença cada vez maior de mulheres — as “cantadoras” — que por décadas foram marginalizadas nesse universo tradicionalmente masculino. Minervina Ferreira, paraibana, e Maria da Soledade, pernambucana, abriram caminho. Hoje, repentistas como Mocinha de Passira e as novas gerações de cantadoras mostram que o repente tem futuro — e que esse futuro é feminino.

    Embolada: o primo frenético do repente

    Enquanto o repente usa melodia e viola, a embolada é puro ritmo vocal — um “coco de embolada” frenético, acelerado, onde o cantador percute o pandeiro enquanto desfia versos numa velocidade impressionante. O “embolador” cria versos em ritmo aceleradíssimo, muitas vezes em desafio com outro embolador, e o resultado é hipnótico.

    A embolada tem raízes no coco nordestino e é especialmente forte em Pernambuco e na Paraíba. Mestres como Caju e Castanha (a dupla mais famosa de emboladores do Brasil) levaram a embolada para a TV e para o conhecimento nacional nos anos 1990 e 2000. Antônio Carlos Nóbrega, multiartista pernambucano, também foi fundamental para a valorização e preservação da arte dos emboladores.

    Repente no século XXI: do sertão pro streaming

    O repente não está confinado ao passado ou ao sertão. Repentistas contemporâneos usam YouTube, Instagram e TikTok para divulgar seu trabalho, e o gênero encontrou um novo público — inclusive entre jovens urbanos que nunca pisaram no sertão. O Festival de Repentistas de Campina Grande (PB), a Cantoria na Serra (PE) e eventos como o São João de Caruaru mantêm viva a tradição das pelejas — os duelos de improviso que são o coração do repente.

    Além disso, o repente influenciou gerações de músicos brasileiros. Da poesia concreta ao rap nacional, a arte da palavra cantada e improvisada nordestina ecoa de maneiras surpreendentes. Artistas como Chico Science & Nação Zumbi beberam nessa fonte. O rapper Emicida, em várias entrevistas, já citou o repente como referência de flow e improvisação. Até o slam poetry — competição de poesia falada que explodiu no Brasil nos últimos anos — pode ser visto como um primo distante dessa tradição secular de poesia performada, competitiva e improvisada.

    O repente é resistência em forma de verso. Enquanto houver sertão, viola e dois poetas dispostos a trocar ideia rimada até o sol nascer, essa tradição secular — que nenhum algoritmo conseguiu igualar — vai continuar viva e desafiadora como sempre foi.

    Imagem de destaque: “Literatura de Cordel” — Emerson Pardo, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0).