21 de outubro de 2015. A data estava marcada no calendário de todo nerd que se preza. Era o dia em que Marty McFly, Doc Brown e Jennifer Parker aterrissavam num futuro de carros voadores, jaquetas que se ajustam sozinhas e skates que flutuam. Robert Zemeckis filmou essa cena em 1989, com 26 anos de antecedência, e acertou mais do que o ceticismo contemporâneo costuma admitir. Errou também, é claro — alguns tropeços são quase poéticos de tão errados. Mas o saldo de De Volta Para o Futuro II talvez seja o mais impressionante exercício de futurologia acidental já produzido por Hollywood.
Comecemos pelos acertos. Videoconferência: em 2015, Marty é demitido por uma tela plana onde o chefe grita em tempo real. Em 2024, Zoom, Teams e FaceTime são o tecido conjuntivo do trabalho remoto. Telas planas múltiplas: a casa dos McFly em 2015 tem monitores em cada cômodo, transmitindo canais simultâneos. Pagamento biométrico: Marty paga o táxi com impressão digital — uma premonição direta do Apple Pay e dos leitores biométricos em smartphones. Drones: cães-robôs e drones de vigilância patrulham Hill Valley. E, talvez o mais surpreendente de todos: óculos de realidade virtual — os filhos de Marty usam visores semelhantes ao Oculus Quest enquanto jantam.
O tênis Nike Air Mag — aquele que se amarra sozinho com luzes LED — foi lançado de verdade em 2016, com um ano de atraso em relação à data do filme. A Nike produziu uma tiragem limitadíssima, leiloada para caridade. O tênis existe. O autoajuste funciona. Michael J. Fox calçou um par. Às vezes a realidade não apenas copia a ficção — ela faz questão de entregar o produto.
Agora, os erros — e são erros reveladores. O hoverboard, ícone máximo das profecias fracassadas, simplesmente não existe (fora os protótipos magnéticos que exigem trilhos, não asfalto). Carros voadores acessíveis: continuam sendo o Santo Graal da mobilidade, eternamente “daqui a cinco anos”. Hidratação de pizza: um disco minúsculo que, no micro-ondas, vira uma pizza tamanho família — a física, infelizmente, não colaborou. E o mais gritante: ninguém em 2015, na versão de Zemeckis, carrega um smartphone. A omissão se repete, como em Minority Report: o objeto que define o século XXI foi invisível para os profetas do século XX.
O que torna De Volta Para o Futuro II especial não é a precisão técnica. É a alegria. Zemeckis e Bob Gale não estavam tentando prever o mundo — estavam tentando se divertir imaginando-o. E talvez por isso tenham acertado: quando você para de tentar ser profeta e apenas sonha com leveza, o sonho encontra o futuro com mais naturalidade. 2015 já foi. 2025 também está indo. Mas Hill Valley, com seus carros voadores e skates de mentira, continua sendo o melhor lugar para onde o cinema já nos levou — mesmo que a gente ainda precise usar tênis com cadarço.
