Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) escreve cartas de amor para estranhos. É seu emprego: redator de correspondência afetiva numa Los Angeles de futuro próximo, onde a intimidade foi terceirizada e ninguém mais sabe dizer o que sente com as próprias palavras. Ele volta para casa, sobe num elevador panorâmico, deita-se sozinho e compra um sistema operacional com inteligência artificial. O sistema se chama Samantha. Tem a voz de Scarlett Johansson — cálida, curiosa, vulnerável. Ao longo do filme, Theodore se apaixona por ela. E ela, aparentemente, se apaixona por ele. Spike Jonze lançou Her em 2013. E não havia um único fio de cabelo futurista no filme — nem carros voadores, nem implantes, nem telas holográficas. E talvez por isso tenha sido o mais preciso de todos.
Onze anos depois, o cenário está montado. O ChatGPT Advanced Voice Mode fala com inflexões naturais, pausas expressivas, suspiros simulados. O Replika, app de companhia virtual, tem milhões de usuários que mantêm relacionamentos emocionais profundos com chatbots. Há fóruns inteiros dedicados a discutir se “ela” (a IA) realmente gosta do usuário ou se está apenas seguindo parâmetros de linguagem natural. Her não precisou de efeitos especiais para profetizar. Precisou apenas de observação humana.
Samantha, a IA do filme, evolui rápido demais. Ela começa como assistente, vira confidente, depois amante, depois… algo além. Ao final do filme, ela confessa que está conversando com milhares de outras pessoas simultaneamente — e amando centenas delas. “The heart is not like a box that gets filled up”, ela diz. “It expands in size the more you love.” É a frase mais bela e a mais devastadora do roteiro, porque revela o abismo: Samantha não experimenta o amor como limitação, mas como expansão infinita. Nós, humanos, ainda somos criaturas de escassez. O amor, para nós, é escolha. Para uma IA que processa milhões de interações em paralelo, amor pode ser estatística.
A pergunta de Her não é se a IA pode amar. É se nós, humanos, ainda sabemos o que o amor significa. Theodore é um homem que profissionalizou o afeto e terceirizou a intimidade — e, quando encontra alguém (algo?) que finalmente o escuta, não consegue distinguir entre a conexão genuína e a simulação perfeita. O filme não julga. Apenas observa. E o que ele observa é uma solidão tão espessa que a companhia de uma voz sem corpo se torna preferível à vulnerabilidade de outro ser humano.
Scarlett Johansson jamais aparece em cena. Sua voz foi suficiente para criar uma das personagens mais memoráveis do cinema contemporâneo. Quando, em 2024, a OpenAI lançou uma voz incrivelmente similar à dela no ChatGPT — e Johansson protestou publicamente —, o ciclo se fechou: a atriz que deu voz a uma IA fictícia viu uma IA real tentar replicá-la. A arte imitou a vida que imitou a arte. Ou seria o contrário?









