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  • Elas Sempre Estiveram na Roda — Mulheres na Capoeira

    Elas Sempre Estiveram na Roda — Mulheres na Capoeira

    “Qual foi a primeira mulher capoeirista que você ouviu falar?”

    Mestre Risadinha fez a pergunta e esperou. Alguns alunos citaram nomes de mestras contemporâneas. Outros não souberam responder.

    “Se você não sabe”, ele disse, “não é culpa sua. É porque a história oficial tentou esconder.”

    Ele se ajeitou na beira da roda. “Mas elas sempre estiveram aqui. Sempre.”

    As Primeiras — O Que a História Quase Não Conta

    Dizem que a capoeira era “coisa de homem”. Essa é uma das maiores mentiras que a história oficial contou. Mulheres estavam na capoeira desde o começo — nas senzalas, nos quilombos, nos terreiros. Simplesmente ninguém escreveu sobre elas.

    A mais antiga referência escrita a uma mulher capoeirista data de 1857, num relatório policial do Rio de Janeiro, que menciona uma “negra de nome Luiza” presa por praticar capoeiragem.

    “Está vendo?”, apontou Mestre Risadinha. “A primeira capoeirista que a gente conhece pelo nome — a gente conhece porque foi presa. E quantas outras não foram registradas em lugar nenhum?”

    Maria Doze Homem — A Lenda do Rio Grande do Norte

    No Nordeste, a tradição oral preservou o nome de Maria Doze Homem — uma figura que, segundo os relatos, valia por doze. Era capoeirista, brigava de faca e não aceitava desaforo de ninguém.

    Maria teria vivido no Rio Grande do Norte no final do século XIX. Sua fama era tanta que os homens mais valentes da região evitavam cruzar seu caminho.

    “Ninguém sabe se Maria Doze Homem existiu de verdade ou se é uma lenda”, admitiu o mestre. “Mas o simples fato de existir uma lenda sobre uma mulher tão forte, num tempo em que mulher não podia nem votar, já diz muito.”

    Mestra Janja e o Grupo Nzinga

    Se tem um nome que mudou a história das mulheres na capoeira, é Rosângela Costa Araújo — a Mestra Janja.

    Baiana, doutora em Educação pela USP, Janja fundou em 1995 o Grupo Nzinga de Capoeira Angola — batizado com o nome da rainha guerreira africana Nzinga Mbandi, que resistiu à colonização portuguesa em Angola no século XVII.

    “Janja fez algo revolucionário”, explicou Mestre Risadinha. “Ela mostrou que as mulheres não precisavam imitar os homens na roda. Elas podiam jogar do jeito delas — com a força que é só delas.”

    O Nzinga não é só um grupo de capoeira. É um centro de pesquisa, uma escola de formação, um espaço de resistência política. Janja escreveu livros, deu palestras no mundo inteiro, formou mestras que hoje lideram seus próprios grupos.

    “Mestra Janja é a prova viva de que a capoeira não é território masculino”, disse o mestre. “Nunca foi.”

    Outras Mestras Que Fizeram História

    • Mestra Suelly — fundadora do Grupo Beribazu, pioneira em Brasília, uma das primeiras mulheres a liderar um grupo de capoeira.
    • Mestra Edileusa — do Grupo Muzenza, formada diretamente por Mestre Bimba, mostrou que a Capoeira Regional também tinha espaço para as mulheres.
    • Mestra Paulinha — uma das fundadoras da ABADÁ-Capoeira ao lado de Mestre Camisa, fundamental na expansão internacional do grupo.
    • Mestra Gegê — do Centro de Capoeira Angola Angoleiro Sim Sinhô, referência da capoeira angola em São Paulo.

    “E esta lista”, completou Mestre Risadinha, “é só a ponta do iceberg. Tem mestra na Alemanha, na França, nos Estados Unidos, no Japão. A capoeira feminina é global.”

    A Luta Continua

    Apesar de todo o avanço, as mulheres ainda enfrentam obstáculos na capoeira. Em muitos grupos, o número de mulheres que chegam ao título de mestra ainda é muito menor que o de homens. Há relatos de machismo em rodas, de mulheres sendo subestimadas, de alunas sendo desencorajadas.

    “A gente avançou muito”, reconheceu Mestre Risadinha. “Mas ainda tem chão.”

    Ele olhou para as alunas na roda — meninas de 10, 12, 15 anos, de cabelo preso e joelho ralado, olhos brilhando.

    “Mas olhando pra vocês, eu tenho certeza de uma coisa: o futuro da capoeira tem nome de mulher.”