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  • Viola Caipira e Sertanejo: Da Roça ao Topo das Paradas

    Viola Caipira e Sertanejo: Da Roça ao Topo das Paradas

    O Brasil que ouve sertanejo em 2026 talvez não saiba, mas a música que embala churrascos, baladas e playlists de sofrência tem raízes que remontam ao Brasil colonial. A viola caipira — aquele instrumento de dez cordas que parece um violão alongado e soa como uma mistura de guitarra folk com harpa rústica — carrega séculos de história. E a jornada que começa com modas de viola em alpendres do interior termina, hoje, com estádios lotados, bilhões de streams e um poder comercial que nenhum outro gênero brasileiro conseguiu igualar.

    A viola caipira: o coração do Brasil rural

    A viola caipira chegou ao Brasil com os colonizadores portugueses ainda no século XVI, mas foi no interior paulista, mineiro, goiano e matogrossense que o instrumento encontrou seu verdadeiro lar. Diferente do violão de seis cordas, a viola tem dez cordas dispostas em cinco pares (ou ordens), o que lhe confere um timbre característico — brilhante, metálico, inconfundível — e permite ao violeiro criar melodias e acompanhamentos simultâneos de forma natural, como se o instrumento cantasse sozinho.

    A música caipira tradicional — ou “música de raiz” — tem seus pilares em nomes como Cornélio Pires (que foi o primeiro a gravar música caipira em disco, em 1929), Tonico e Tinoco (a dupla mais longeva e prolífica do gênero, com mais de 60 anos de carreira), Alvarenga e Ranchinho (mestres da sátira e do humor) e Inezita Barroso, que dedicou a vida à pesquisa e divulgação da música caipira, comandando o programa “Viola, Minha Viola” na TV Cultura por mais de 30 anos.

    Violeiros como Tião Carreiro (criador do “pagode de viola”, gênero instrumental virtuosístico), Bambico, Almir Sater e Roberto Corrêa elevaram a viola caipira ao status de instrumento de concerto. Hoje, o instrumento é estudado em conservatórios e universidades, e violeiros contemporâneos como Ivan Vilela e Bruna Viola mantêm a tradição viva entre o erudito e o popular.

    Sertanejo raiz: do campo pra cidade

    O sertanejo raiz — aquele que fala da vida no campo, do carro de boi, da boiada, da saudade da terra natal — teve seu auge entre os anos 1950 e 1970, num Brasil que ainda era majoritariamente rural. Duplas como Tonico e Tinoco, Zé Carreiro e Carreirinho, Pena Branca e Xavantinho, Liu e Léu e Milionário e José Rico (com sua marca registrada: a voz agudíssima e potente de Milionário) construíram o repertório que serviria de base para tudo que viria depois.

    O ponto de virada do gênero aconteceu nos anos 1980, com Chitãozinho & Xororó e Leandro & Leonardo. Essas duplas pegaram a estrutura da música caipira (temas de amor e sofrimento, harmonias simples, vozes em terça) e a modernizaram radicalmente: produção sofisticada, influências de pop internacional, arranjos com teclados e guitarra, e uma presença de palco pensada para grandes públicos. O resultado foi uma explosão comercial que ninguém previu — e que nunca mais parou.

    Sertanejo universitário: o fenômeno que tomou o Brasil

    O sertanejo universitário é herdeiro direto dessa modernização, mas levou o processo ainda mais longe. Nascido no Mato Grosso do Sul e interior de São Paulo nos anos 2000, o gênero trocou a viola caipira pelo violão elétrico, adicionou batidas de pop-rock e eletrônico, e criou um híbrido que funciona perfeitamente tanto na balada sertaneja quanto na playlist de academia.

    Artistas como Henrique & Juliano, Jorge & Mateus, Gusttavo Lima, Marília Mendonça (que morreu tragicamente num acidente aéreo em 2021, mas cujo catálogo segue um dos mais ouvidos do país) e Ana Castela dominam as paradas com uma regularidade industrial. Em 2026, o sertanejo continua sendo o gênero mais ouvido do Brasil em todas as plataformas de streaming, com números que nenhum outro estilo chega perto.

    Curiosamente, a sofrência — o subgênero que fala de corno, traição e bebedeira — é uma espécie de volta ao sertanejo raiz, só que com roupa nova. O conteúdo é essencialmente o mesmo (dor de amor, vida noturna, cachaça), mas a embalagem é pop, moderna e globalizada. Marília Mendonça, rainha indiscutível da sofrência, dizia em entrevistas que suas letras falavam de empoderamento feminino — de um jeito que só o sertanejo sabe falar.

    Críticas e controvérsias

    O domínio absoluto do sertanejo sobre o mainstream brasileiro não vem sem críticas. Muitos apontam a homogeneização da música popular, com rádios e plataformas dominadas por um número pequeno de artistas ligados a grandes escritórios. Há também a questão do financiamento de shows por prefeituras, que gerou polêmicas sobre o uso de dinheiro público para contratar artistas de cachês milionários. O caso mais notório foi o de Gusttavo Lima, cujos shows chegaram a ser investigados por supostos superfaturamentos com verba pública.

    Apesar das controvérsias, é inegável que o sertanejo é o retrato mais fiel do gosto musical brasileiro contemporâneo. Do violeiro anônimo do interior de Goiás ao megafestival que reúne 100 mil pessoas em São Paulo, do modão raiz à sofrência pop — o sertanejo é o Brasil que canta suas dores e alegrias em escala industrial.

    A viola caipira tem mais de quatro séculos de Brasil nas cordas. O sertanejo universitário tem pouco mais de duas décadas. Mas a distância entre os dois é menor do que parece — no fundo, é o mesmo país cantando, só que com microfone melhor e plateia maior.