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  • Madame Satã — Malandro, Drag Queen e Capoeirista

    Madame Satã — Malandro, Drag Queen e Capoeirista

    “Sabe qual é o maior erro que as pessoas cometem quando falam da Madame Satã?”

    Madame Satã — Malandro, Drag Queen e Capoeirista
    Wikimedia Commons — Public domain, autor UnknownUnknown

    Mestre Risadinha esperou. Ninguém arriscou.

    “Achar que ela era uma coisa só.”

    Ele fez uma pausa. “Madame Satã foi tanta coisa que não cabe num rótulo: capoeirista, malandro, drag queen, cozinheiro, pai de família, lenda viva da Lapa. E acima de tudo: sobrevivente.”

    O Menino Que Virou Lenda

    João Francisco dos Santos nasceu em 1900, em Glória do Goitá, Pernambuco — um lugarejo que até hoje pouca gente sabe onde fica. Aos 13 anos, trocou de lugar com um menino que ia ser vendido como escravo e embarcou num navio para o Rio de Janeiro. Ele mesmo se vendeu — pra salvar outra criança.

    “Já começa aí”, comentou Mestre Risadinha. “O cara tinha 13 anos e botou a própria liberdade em risco pra salvar um desconhecido. Isso diz muito sobre quem ele era.”

    No Rio, João Francisco virou Madame Satã. Mas não foi de uma vez.

    A Lapa dos Anos 1930

    A Lapa dos anos 1920 e 1930 era o coração pulsante da boemia carioca. Prostitutas, malandros, músicos, poetas, artistas de circo — todo mundo se encontrava nos cabarés e botequins da região. E, no meio desse caldeirão, Madame Satã dançava, cantava, lutava e desfilava.

    O apelido “Satã” veio de uma fantasia que ele usou num baile de carnaval — um figurino vermelho com chifres, inspirado no diabo do filme “A Madrasta”, que estava em cartaz num cinema da Lapa. O “Madame” veio antes, da performance drag que ele fazia nos palcos.

    “Ele não era só drag”, explicou o mestre. “Era artista. Cantava, dançava, costurava as próprias roupas. Era cozinheiro de mão cheia — dizem que o peixe ao molho dele era famoso na Lapa inteira.”

    Mas o que realmente assustava era a capoeira.

    “Quem Mandou Me Procurar?”

    Madame Satã era temida. Em um tempo em que ser negro, pobre, homossexual e malandro era praticamente uma sentença de morte, ele não só sobrevivia — ele dominava.

    Seu golpe mais famoso era a rasteira — aplicada com uma precisão tão cirúrgica que o adversário caía antes de entender o que tinha acontecido. Dizem que ele enfrentou, sozinho, um grupo de policiais armados de cassetete numa rua da Lapa — e que, ao final da briga, todos estavam no chão.

    “Isso é exagero? Provavelmente”, riu Mestre Risadinha. “Mas o fato é que a polícia do Rio tinha tanto medo dele que mandava reforço sempre que ia prendê-lo.”

    Madame Satã enfrentou 29 processos criminais. Passou, ao todo, 27 anos e 8 meses da vida na cadeia — intercalados, não de uma vez. A maior parte das prisões era por vadiagem — o mesmo artigo que pegava os capoeiristas no século anterior.

    Em uma dessas prisões, ele foi levado para a Ilha Grande — presídio de segurança máxima. Quando um preso tentou intimidá-lo, Satã respondeu com uma frase que virou lenda: “Quem mandou me procurar, hem, filho da puta?”

    Depois desse dia, ninguém mais mexeu com ele na Ilha Grande.

    O Legado Que o Brasil Quase Esqueceu

    Madame Satã morreu em 1976, aos 76 anos, de causas naturais — o que, considerando sua vida, já é um milagre. Criou filhos adotivos — há relatos de que foram vários — e dedicou a eles o cuidado que nunca recebeu na infância.

    Em 2002, o filme “Madame Satã”, dirigido por Karim Aïnouz e estrelado por Lázaro Ramos, levou sua história ao mundo. Foi selecionado para o Festival de Cannes e ganhou prêmios internacionais.

    “O que a Madame Satã ensina pra gente?” Mestre Risadinha olhou para cada aluno, um por um. “Ensina que você pode ser tudo ao mesmo tempo. Pode ser forte e frágil, valente e delicado, temido e amado. Pode ser o que quiser — desde que não deixe ninguém te colocar numa caixa.”

    Ele fez o sinal da cruz — mistura de fé e malandragem.

    “Salve Madame Satã, que nunca se curvou.”