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  • O Deus Que Desceu Envolto em Raios

    O Deus Que Desceu Envolto em Raios

    O Deus Que Desceu Envolto em Raios

    No Pacífico, o horizonte nunca está vazio. Para os povos das ilhas, o mar era um espelho do céu: as canoas partiam de um lado do mundo e voltavam do outro, e os deuses viajavam como luz. Tangaloa, o senhor do céu nas tradições de Samoa e Tonga — parente do Tangaroa dos maoris, deus do mar e da criação —, descia dos astros envolto em brilho; Lono, deus havaiano da paz, da chuva e da colheita, havia partido pelo mar prometendo voltar. As ilhas viviam, assim, com uma certeza que nenhum continente ousou ter: o divino podia chegar a qualquer momento, do céu ou da água, na forma de um homem.

    O deus e o festival

    A religião havaiana conhecia dois grandes deuses do alto: Kū, o deus da guerra, e Lono, o deus da fertilidade e da paz. Quando Lono morria no fim de cada ciclo, começava o Makahiki — o festival de quatro meses, entre outubro e fevereiro, em que a guerra era suspensa, os tributos eram recolhidos e a imagem de Lono, um mastro envolto em pano branco com uma cabeça talhada, era levada em volta da ilha, como o próprio deus percorrendo suas terras. O clímax do festival celebrava a renovação do ano, quando o céu e o mar pareciam mais próximos da terra. Era o tempo sagrado do retorno.

    O capitão que chegou na hora certa

    Em 18 de janeiro de 1778, o capitão James Cook avistou Kaua’i — o primeiro contato entre a Europa e o arquipélago havaiano, no curso de sua terceira viagem. Cook deixou as ilhas, explorou o norte, e voltou no fim daquele ano: em janeiro de 1779 ancorou na baía de Kealakekua, na grande ilha do Havaí, exatamente durante o Makahiki. Os relatos dos próprios tripulantes descrevem uma recepção extraordinária: milhares de havaianos, cerimônias, presentes, e o capitão conduzido a um templo — o heiau — e tratado, segundo muitos testemunhos, como o próprio Lono que retornava. Os mastros e as velas brancas dos navios, para os que esperavam o deus que partira pelo mar, compunham a figura que a profecia anunciava: algo que desce do horizonte envolto em luz.

    O que os havaianos realmente pensavam, ninguém pode entrevistar: eles morreram em massa nas décadas seguintes, vítimas das doenças trazidas pelos próprios visitantes. O debate ficou entre os estudiosos. O antropólogo Marshall Sahlins, em Como Pensam os Nativos, sustentou que a recepção de Cook como Lono fazia sentido dentro da lógica ritual havaiana; o historiador Gananath Obeyesekere, em A Apoteose do Capitão Cook, respondeu que a divinização foi uma invenção europeia — um mito que os colonizadores contaram sobre si mesmos para explicar a própria violência. A controvérsia sobre o deus, como quase tudo no Pacífico, diz mais sobre quem narra do que sobre quem foi narrado.

    O que não sabemos: o que se vê quando um deus desce

    A sequência dá razão parcial aos dois. Quando o Makahiki terminou, o deus tornou-se um homem problemático que não partia; uma disputa por um bote roubado e a tentativa de Cook de deter o rei Kalani’ōpu’u escalaram para o confronto. Em 14 de fevereiro de 1779, Cook foi morto na praia de Kealakekua. O deus que desce termina sempre da mesma forma nos mitos: ou parte em silêncio, ou é despedaçado pelo mundo ao qual desceu. Cook cumpriu as duas versões — os havaianos trataram seus restos com ritos, e o mar levou o que sobrou.

    A leitura dos mitos polinésios pelos ufólogos — Tangaloa chegando num escudo brilhante, Lono retornando do mar — encontra nos textos a matéria-prima da ambiguidade: toda descida é descrita em luz, e a luz é a moeda comum entre o divino e o técnico. Mas talvez o enigma não esteja no céu, e sim no gesto: quando um povo vê uma forma estranha no horizonte, traduz-na para a língua mais alta que possui. No século XVIII, a língua mais alta era o deus. No século XXI, é a máquina. O objeto que chega pode ser o mesmo; muda o vocabulário da recepção. A mitologia polinésia é, nesse sentido, um laboratório: nela vemos o processo completo de transformar uma chegada em teologia, em tempo sagrado e em tabu — o kapu que cerca o divino e o proíbe.

    O que está em jogo

    Lono partiu prometendo voltar; os deuses da Polinésia nunca param de descer. A baía de Kealakekua guarda hoje um monumento a Cook, e o mar, em volta, continua o mesmo espelho que transforma mastros em deuses e deuses em luz. O que está em jogo é a própria tradução do inexplicável: cada época recebe a chegada com o vocabulário que tem, e cada vocabulário decide o que será lembrado e o que será sacrificado. A pergunta que o festival deixa para nós: quando uma luz aparecer no nosso horizonte, em que língua a receberemos — e o que faremos quando ela partir, como todos os deuses partem, sem se despedir?