O Louva-a-Deus Que Preside as Abduções
Em quase todo relato de abdução há uma sala. E em quase toda sala há uma figura que não faz nada — apenas observa. É alta, magra, de cabeça triangular e braços longos articulados como os de um inseto. Os abduzidos a descrevem em poucas palavras, como se a memória se recusasse a se deter nela. E talvez seja exatamente aí que ela comande: no silêncio.
Chamemos de mantídeo — o louva-a-deus que preside. Ele não toca, não explica, não ameaça. Está simplesmente presente, no topo da hierarquia das salas de exame, enquanto os Greys trabalham ao seu redor como operários.
O que sabemos
O louva-a-deus terrestre já é, ele mesmo, um alienígena de estimação da evolução: cabeça triangular que gira quase 270 graus, olhos compostos que parecem não piscar nunca, patas dianteiras dobradas em prece — uma postura que os humanos confundiram com oração e que os egípcios leram como sinal divino, gravado em hieróglifos. A natureza, sem sair da Terra, desenhou um visitante perfeito.
Nos relatos de abdução, os mantídeos aparecem em uma parcela pequena, porém consistente, dos casos — registrados ao longo de três décadas por pesquisadores como David Jacobs e Budd Hopkins. São descritos mais altos que os Greys, com pele quitinosa, olhos enormes e oblíquos e movimentos de uma lentidão deliberada. Os abduzidos os chamam de supervisores: os Greys executam; eles presidem.
Whitley Strieber, cujo livro Comunhão (1987) levou o fenômeno às livrarias do mundo, descreveu em obras posteriores a figura de um mantídeo que presidia seus encontros — o mestre da escola, nas palavras do próprio autor, uma presença que acompanhava as sessões de exame como um professor observa uma prova. Nos relatos clássicos de abdução, a figura costuma aparecer ao fundo, raramente se aproxima do leito de exame e jamais é vista em pânico — sua calma é o detalhe que mais impressiona os entrevistados. E é curioso notar que a capa de Comunhão, com seus olhos enormes, guarda uma estranheza que muitos leitores leem como inseto sem perceber.
O mantídeo também habita a mitologia com naturalidade. Para os san do deserto do Kalahari, o Louva-a-deus é o deus-trapaceiro que criou o mundo; na China, o estilo de luta do punho do louva-a-deus imita sua precisão mortal; em várias tradições, o inseto imóvel é sinal de que algo aguarda. O mesmo gesto — a espera — reaparece, século após século, como atributo do divino.
O que não sabemos
Não se sabe por que um inseto — a criatura com a qual nossa empatia menos se identifica — aparece como autoridade no topo da hierarquia das abduções. Se os Greys já são estranhos, o mantídeo é duplamente estranho: não há nele nada que possamos reconhecer como rosto, expressão ou intenção.
Não se sabe se os mantídeos são uma espécie, uma casta, um holograma ou um símbolo. Algumas hipóteses os colocam como arquitetos dos Greys — a inteligência que teria projetado os drones cinzentos, ecoando a suspeita de que o cinza é instrumento e o inseto, desígnio.
O psiquiatra John Mack, professor de Harvard que estudou abduzidos por anos, preferiu outra leitura: a de que os encontros são experiências reais em um sentido que escapa à física — e que a figura do mantídeo seria a cara que o mistério escolhe para se mostrar a uma mente que só reconhece o outro como presença. Para Mack, perguntar se o inseto é físico seria perder a pergunta mais importante: por que essa forma, e por que agora. A essas perguntas, a pesquisa responde com o mesmo silêncio que a figura mantém nos relatos.
O que está em jogo
Se os mantídeos presidem, o fenômeno da abdução tem hierarquia e propósito. Alguém dirige o experimento, alguém colhe os dados, alguém toma as decisões finais — e os Greys, com toda a sua fama, seriam apenas a linha de frente de um processo cujo centro ninguém viu.
A postura do louva-a-deus é a da espera absoluta. Imóvel, ele é o predador mais paciente que a natureza já produziu — capaz de permanecer horas, dias, sem um único movimento. Se essa figura comanda os relatos, o que está verdadeiramente em jogo é o tempo: a quem pertence o tempo que perdemos nas salas de exame, e o que se colhe enquanto esperamos?
A pergunta que permanece
O louva-a-deus não corre, não ameaça, não explica. Ele apenas está — e a sua presença basta. Talvez seja por isso que a memória dos abduzidos o recorta tão mal: não há evento a recordar, apenas uma testemunha no centro da cena.
E se aquele que preside a mesa não tiver pressa alguma, porque para ele o tempo já é uma presa imóvel, recolhida há séculos? Quando o relógio humano se esgotar, saberemos enfim o que ele esperava — ou ele, imóvel, continuará esperando por nós.
