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  • Prince: O Gênio Que Nunca Coube em Nenhuma Caixa

    Prince: O Gênio Que Nunca Coube em Nenhuma Caixa

    Em 1978, um garoto de Minneapolis de 19 anos lançou seu primeiro álbum por uma grande gravadora. For You tinha créditos que pareciam piada: ‘produzido, arranjado, composto e executado por Prince Rogers Nelson’. Ele tocou todos os 27 instrumentos do disco — guitarra, baixo, bateria, teclados, sintetizadores, percussão, tudo. A Warner Bros. ficou impressionada e aterrorizada ao mesmo tempo. Nas quatro décadas seguintes, Prince lançaria 39 álbuns de estúdio, ganharia 7 Grammys, 1 Oscar, venderia mais de 150 milhões de discos, acumularia um cofre climatizado abarrotado com material inédito suficiente para décadas de lançamentos póstumos, mudaria de nome para um símbolo impronunciável, escreveria ‘SLAVE’ na própria bochecha para denunciar publicamente a indústria musical, e faria tudo isso sem nunca, em momento algum, se importar com o que esperavam que ele fosse.

    Purple Rain: O Filme, o Álbum, o Terremoto Cultural

    1984 foi o ano em que Prince explodiu para o mundo — nos termos dele, claro. Purple Rain — filme semi-autobiográfico e álbum simultâneos — vendeu 25 milhões de cópias, ficou 24 semanas consecutivas no topo da Billboard 200, e gerou quatro singles no top 10 americano. O filme, orçado em US$ 7 milhões, arrecadou US$ 70 milhões e ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original. Mas o que realmente aconteceu ali foi a fusão nuclear de tudo que Prince sabia fazer: funk suado de Minneapolis, rock de arena, pop new wave, soul da Motown, e uma teatralidade sexual ambígua que deixava o mainstream americano profundamente desconfortável — e fascinado.

    ‘When Doves Cry’ — o single principal — chegou ao número 1 da Billboard e ficou lá por cinco semanas. A música não tem uma única nota de baixo. Prince simplesmente removeu a linha de baixo da mixagem final porque ‘soava melhor sem ela’. Nenhum artista pop fazia isso. Nenhum executivo de gravadora permitiria. Prince fazia e nem pedia permissão.

    Sign o’ the Times: A Obra-Prima Incompreendida

    Em 1987, depois de descartar três projetos inteiros (incluindo o álbum triplo Crystal Ball e o projeto Camille com voz acelerada), Prince lançou Sign o’ the Times — um álbum duplo de 16 faixas que ia do minimalismo eletrônico quase profético da faixa-título (sobre AIDS, crack, violência urbana e desastre nuclear) ao funk suado de ‘Housequake’, à psicodelia de ‘If I Was Your Girlfriend’, à balada espiritual ‘The Cross’ e ao êxtase soul de ‘Adore’. A crítica da época ficou dividida. Hoje, é universalmente considerado sua obra-prima definitiva — e aparece consistentemente no top 20 de listas de melhores álbuns de todos os tempos.

    O que torna Sign o’ the Times único é sua imprevisibilidade radical. Cada faixa poderia pertencer a um artista, um gênero, um planeta diferente. A coesão não está no som — está na mente singular que concebeu todas as 16 músicas, tocou quase todos os instrumentos e produziu cada detalhe. É um mapa do cérebro de Prince — e o cérebro de Prince era um lugar extraordinário para se visitar.

    A Guerra com a Warner e o Símbolo

    No começo dos anos 1990, Prince declarou guerra total à Warner Bros. A briga era essencialmente sobre velocidade: ele compunha mais rápido do que o modelo de negócios conseguia digerir. Queria lançar cinco álbuns por ano; a gravadora queria um a cada 18 meses para maximizar cada ciclo promocional. Prince considerava isso censura artística. A Warner considerava ‘business as usual’. Ninguém cedeu.

    Em 7 de junho de 1993 — seu aniversário de 35 anos — Prince oficialmente abandonou seu nome e o substituiu por um símbolo impronunciável, a fusão dos signos astrológicos de masculino e feminino. A mídia o rebatizou de ‘The Artist Formerly Known as Prince’. Ele apareceu em público com a palavra ‘SLAVE’ escrita na bochecha. Apresentadores de talk show fizeram piadas. A indústria o tratou como excêntrico. Mas o que Prince estava denunciando — décadas antes do streaming e do debate sobre direitos autorais digitais — era um sistema que tratava artistas como propriedade corporativa, dono de seus nomes, de seus masters, de sua produção. O tempo provou que ele estava certo.

    O Cofre e a Eternidade

    Prince morreu em 21 de abril de 2016, aos 57 anos, de overdose acidental de fentanil, sozinho no elevador de Paisley Park, seu complexo criativo em Chanhassen, Minnesota. Deixou o famoso ‘Vault’ — um cofre climatizado literal, com porta de banco, contendo material suficiente para mais de 100 álbuns. Estimativas falam em mais de 8.000 músicas inéditas: álbuns completos, videoclipes, filmes, sessões de estúdio inteiras arquivadas. Desse cofre já saíram Piano & a Microphone 1983 (2018) e Originals (2019). A maior parte ainda está lá, esperando.

    Prince não cabe em playlist de algoritmo. Não cabe em categoria de premiação. Não cabe em caixa de gênero — rock, funk, pop, soul, new wave, jazz: ele era todos e nenhum ao mesmo tempo. Foi o artista mais livre que a música pop mundial já produziu — e pagou o preço integral por essa liberdade. Como ele mesmo cantou em ‘I Would Die 4 U’: ‘I’m not a woman. I’m not a man. I am something that you’ll never understand.’ E era mesmo.