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  • Do Miami Bass ao Baile de Favela — Como Nasceu o Funk Carioca

    Pouca gente sabe, mas o funk carioca — o genero mais brasileiro que existe — comecou na Florida. Mais especificamente, nos clubes de Miami onde DJs tocavam um som chamado Miami Bass: batidas eletronicas rapidas, graves estourados, vocais falados e uma energia que fazia o chao tremer.

    Nos anos 80, discos de nomes como 2 Live Crew, DJ Magic Mike e Afro-Rican chegavam ao Rio de Janeiro por meio de malas de viajantes e marinheiros. Eram tocados nos bailes da periferia carioca — e ali, longe de Miami, comecava uma revolucao musical que ninguem previu.

    Os Bailes: O Berco de Tudo

    Os bailes funk nasceram nos anos 70 como festas de soul e funk americano (James Brown, Kool & The Gang) nos suburbios do Rio. Eram organizados por equipes de som — grupos que montavam sistemas de som gigantescos e disputavam quem tinha a aparelhagem mais potente.

    Equipes como Furacao 2000, Cash Box e Soul Grand Prix se tornaram lendarias. O baile funk nao era so musica: era ponto de encontro, espaco de identidade e resistencia cultural da periferia. Milhares de jovens se reuniam em quadras, clubes e galpoes para dancar ate o amanhecer.

    Quando os discos de Miami Bass chegaram, os DJs brasileiros comecaram a experimentar. Pegavam as batidas gringas, aceleravam, sampleavam e adicionavam vocais em portugues. O volt mix — uma tecnica de mixagem que dava a volta completa no disco — virou assinatura sonora do funk carioca.

    DJ Marlboro: O Pai do Funk Carioca

    Se o funk carioca tem um pai, e DJ Marlboro. Nascido Fernando Luis Mattos, ele foi o primeiro a gravar e lancar funk carioca como produto fonografico. Em 1989, lancou Funk Brasil, o primeiro LP de funk nacional — com batidas de Miami Bass, samples de funk americano e vocais em portugues cantando sobre o cotidiano das favelas cariocas.

    O disco vendeu mais de 100 mil copias numa epoca em que isso era praticamente impossivel para um genero marginalizado. A gravadora Polygram, que lancou o disco, nao fazia ideia do que tinha nas maos. Mas os bailes sabiam.

    A Virada: De Cover Para Autoral

    Nos primeiros anos, a maioria dos funks eram versoes em portugues de musicas americanas. Mas na metade dos anos 90, os MCs comecaram a criar letras originais — e ai o funk carioca encontrou sua identidade.

    MC Cidinho e MC Doca lancaram Rap da Felicidade em 1995, falando sobre a vida na favela (Eu so quero e ser feliz / Andar tranquilamente na favela onde eu nasci). A musica furou a bolha: tocou em radio, em TV, virou hino.

    Claudinho e Buchecha trouxeram o funk melody — uma vertente mais melodica e romantica — e emplacaram hits como Conquista e Fico Assim Sem Voce. O Brasil descobriu que funk tambem podia ser amor.

    No final dos anos 90, o tamborzao — a batida criada em cima de samples de atabaque e sons de conga — se consolidou como a identidade ritmica definitiva do funk carioca. A partir dali, funk carioca nao era mais Miami Bass abrasileirado. Era um genero novo, original, 100% brasileiro.

    Da Margem ao Centro

    O funk carioca levou 20 anos para sair da criminalizacao e chegar ao centro da cultura brasileira. Foi perseguido pela policia, proibido por leis, hostilizado pela midia. Mas sobreviveu — porque os bailes nunca pararam.

    Hoje, o funk e reconhecido como patrimonio cultural, da aula em universidades, inspira teses de doutorado e lota estadios. Nao e modinha. E a trilha sonora do Brasil contemporaneo — e comecou com um disco do 2 Live Crew tocando numa caixa de som na Zona Norte do Rio.

  • Madame Satã — Malandro, Drag Queen e Capoeirista

    Madame Satã — Malandro, Drag Queen e Capoeirista

    “Sabe qual é o maior erro que as pessoas cometem quando falam da Madame Satã?”

    Mestre Risadinha esperou. Ninguém arriscou.

    “Achar que ela era uma coisa só.”

    Ele fez uma pausa. “Madame Satã foi tanta coisa que não cabe num rótulo: capoeirista, malandro, drag queen, cozinheiro, pai de família, lenda viva da Lapa. E acima de tudo: sobrevivente.”

    O Menino Que Virou Lenda

    João Francisco dos Santos nasceu em 1900, em Glória do Goitá, Pernambuco — um lugarejo que até hoje pouca gente sabe onde fica. Aos 13 anos, trocou de lugar com um menino que ia ser vendido como escravo e embarcou num navio para o Rio de Janeiro. Ele mesmo se vendeu — pra salvar outra criança.

    “Já começa aí”, comentou Mestre Risadinha. “O cara tinha 13 anos e botou a própria liberdade em risco pra salvar um desconhecido. Isso diz muito sobre quem ele era.”

    No Rio, João Francisco virou Madame Satã. Mas não foi de uma vez.

    A Lapa dos Anos 1930

    A Lapa dos anos 1920 e 1930 era o coração pulsante da boemia carioca. Prostitutas, malandros, músicos, poetas, artistas de circo — todo mundo se encontrava nos cabarés e botequins da região. E, no meio desse caldeirão, Madame Satã dançava, cantava, lutava e desfilava.

    O apelido “Satã” veio de uma fantasia que ele usou num baile de carnaval — um figurino vermelho com chifres, inspirado no diabo do filme “A Madrasta”, que estava em cartaz num cinema da Lapa. O “Madame” veio antes, da performance drag que ele fazia nos palcos.

    “Ele não era só drag”, explicou o mestre. “Era artista. Cantava, dançava, costurava as próprias roupas. Era cozinheiro de mão cheia — dizem que o peixe ao molho dele era famoso na Lapa inteira.”

    Mas o que realmente assustava era a capoeira.

    “Quem Mandou Me Procurar?”

    Madame Satã era temida. Em um tempo em que ser negro, pobre, homossexual e malandro era praticamente uma sentença de morte, ele não só sobrevivia — ele dominava.

    Seu golpe mais famoso era a rasteira — aplicada com uma precisão tão cirúrgica que o adversário caía antes de entender o que tinha acontecido. Dizem que ele enfrentou, sozinho, um grupo de policiais armados de cassetete numa rua da Lapa — e que, ao final da briga, todos estavam no chão.

    “Isso é exagero? Provavelmente”, riu Mestre Risadinha. “Mas o fato é que a polícia do Rio tinha tanto medo dele que mandava reforço sempre que ia prendê-lo.”

    Madame Satã enfrentou 29 processos criminais. Passou, ao todo, 27 anos e 8 meses da vida na cadeia — intercalados, não de uma vez. A maior parte das prisões era por vadiagem — o mesmo artigo que pegava os capoeiristas no século anterior.

    Em uma dessas prisões, ele foi levado para a Ilha Grande — presídio de segurança máxima. Quando um preso tentou intimidá-lo, Satã respondeu com uma frase que virou lenda: “Quem mandou me procurar, hem, filho da puta?”

    Depois desse dia, ninguém mais mexeu com ele na Ilha Grande.

    O Legado Que o Brasil Quase Esqueceu

    Madame Satã morreu em 1976, aos 76 anos, de causas naturais — o que, considerando sua vida, já é um milagre. Criou filhos adotivos — há relatos de que foram vários — e dedicou a eles o cuidado que nunca recebeu na infância.

    Em 2002, o filme “Madame Satã”, dirigido por Karim Aïnouz e estrelado por Lázaro Ramos, levou sua história ao mundo. Foi selecionado para o Festival de Cannes e ganhou prêmios internacionais.

    “O que a Madame Satã ensina pra gente?” Mestre Risadinha olhou para cada aluno, um por um. “Ensina que você pode ser tudo ao mesmo tempo. Pode ser forte e frágil, valente e delicado, temido e amado. Pode ser o que quiser — desde que não deixe ninguém te colocar numa caixa.”

    Ele fez o sinal da cruz — mistura de fé e malandragem.

    “Salve Madame Satã, que nunca se curvou.”