Volume I — Água · série Manual de Reconstrução da Humanidade · capítulo C005 · nível de confiança: PADRÃO (1 mm × 1 m² = 1 L) + PRÁTICA
Poço e cisterna transformam “achar água hoje” em “ter água todo dia”. É a obra que mais devolve por hora trabalhada — e a que mais mata por erro de projeto, porque envolve cavar fundo, descer em lugar fechado e guardar milhares de litros numa estrutura que pode desabar.
O princípio
A conta da chuva (decore esta)
1 mm de chuva × 1 m² de telhado = 1 litro. É só isso. Uma casa com 60 m² de telhado, numa chuva de 30 mm, capta 60 × 30 = 1.800 litros em um único dia.
Uma cisterna de 10 m³ (10.000 L) enche com cerca de 167 mm de chuva nesse telhado. Numa região com 800 mm por ano, o mesmo telhado recebe cerca de 48.000 L por ano. Multiplique por 0,8 para descontar perdas reais (descarte da primeira chuva, respingos, vazamento): uns 38.000 L aproveitáveis. PRÁTICA
Dimensionar o consumo
As normas humanitárias (Sphere) usam como mínimo 15 litros por pessoa por dia para beber, cozinhar e higiene básica — dos quais cerca de 2,5 a 3 L são só para beber e comer (mais no calor e com trabalho pesado). Dimensione a cisterna pelo período de seca, não pelo ano:
Volume ≈ consumo diário por pessoa × pessoas × dias sem chuva + 20% de reserva. Exemplo: 4 pessoas × 15 L × 120 dias = 7.200 L; com reserva, uns 8.600 L.

Passo a passo
A) Captação de chuva — a água mais limpa que existe de graça
- Superfície: telha cerâmica, laje, chapa metálica ou lona nova. Evite telhado de amianto, superfície com chumbo, madeira tratada e calha enferrujada ou com pintura descascando.
- Descarte da primeira chuva — obrigatório. A primeira água lava o telhado: poeira, fezes de pássaro, fuligem. Desvie os primeiros 1 a 2 mm (num telhado de 60 m², 60 a 120 L) antes de mandar para a cisterna. Estudos de campo mostram que cada milímetro descartado corta grosso modo pela metade a sujeira que segue — depois de seca longa, descarte mais.
- Barato e eficaz: um “T” na descida da calha com um tubo vertical fechado embaixo. Ele enche primeiro e, cheio, a água passa para a cisterna. O volume do tubo é o volume descartado; esvazie-o depois de cada chuva.
- Filtro de entrada: tela contra folhas na calha e na boca da cisterna. Poupa limpeza pesada depois.
- Cisterna: tampada, escura por dentro, com tela em toda abertura, inclusive no ladrão (extravasor).
- Trate mesmo assim. A chuva cai limpa, mas o caminho até a cisterna contamina. Ferva ou clore antes de beber (C001).
B) Poço cavado — quando a chuva não basta
- Localização: a 30 m ou mais de latrina, fossa, curral, cemitério ou lixo — e acima deles no declive (regra Sphere, sem teste de solo).
PADRÃO - Forma: circular resiste melhor ao empuxo do solo que quadrada. Diâmetro suficiente para trabalhar com segurança (cerca de 1 a 1,5 m).
- Revestimento — a ordem certa: os primeiros 3 metros a partir da boca são vedados (alvenaria ou anéis de concreto rejuntados), para impedir que a água da superfície desça pela parede. Abaixo do nível da água, a parede é permeável (anéis perfurados, pedra seca, tijolo sem argamassa), para a água entrar. No fundo, uma camada de cascalho lavado.
- Mureta e calçada: mureta acima do chão e uma calçada impermeável de pelo menos 1 m em volta, com caimento para fora, levando a água derramada para longe. Esse detalhe separa poço bom de poço contaminado.
- Tampa firme. Balde e corda exclusivos do poço, pendurados, nunca no chão — ou, melhor, bomba manual.

C) Descer no poço — só com equipe
- Nunca sozinho. Uma pessoa na boca o tempo todo, com a corda amarrada ao corpo de quem desce (cinto ou arnês), pronta para içar.
- Ventile antes e durante. Poço fechado acumula gases e perde oxigênio. Tirar água com balde não ventila. Sopre ar para dentro (fole, ventilador, lona em funil) por vários minutos.
- Nunca motor no poço. Bomba a gasolina ou diesel dentro ou na boca do poço enche o fundo de monóxido de carbono, que mata em minutos. Mantenha o escapamento longe.
- Limpar com cloro? Pelo lado de fora. Água sanitária forte solta gás cloro no fundo: esfregue a parede com escova de cabo longo, sem descer.
- Se alguém desmaiar lá embaixo, não desça atrás: puxe pela corda. Em espaço confinado, é comum a segunda vítima ser quem desceu para socorrer.
D) Cacimba e reserva
- Mesma regra dos 30 m da latrina.
- Fundo com cascalho lavado e pedra grande, para não revolver o barro.
- Sempre tampada, com tela contra inseto, rato e folha.
- Água de cacimba é reserva, não água de beber: trate antes.
Como identificar
Funcionando bem: água clara depois de 2 ou 3 retiradas; nível que se recupera em horas; na cisterna, sem cheiro, sem película, sem larva.
Problema: água sempre barrenta (fundo revolvido ou parede desmoronando); nível que leva dias para voltar (poço pequeno para o uso); cheiro de ovo podre (matéria orgânica apodrecendo no fundo); água que turva logo depois de chuva forte (enxurrada entrando pela boca — refaça a calçada e a vedação).
⚠️ Risco — o erro que mata
Os quatro erros que matam em obra de água:
- Descer no poço sozinho ou sem ventilar. Gás e falta de oxigênio não têm cheiro. Nunca sozinho, nunca sem corda, nunca “só rapidinho”.
- Cavar sem escorar. Passou da altura do joelho em solo solto, escore as paredes antes de aprofundar.
- Latrina a menos de 30 m, ou acima do poço no declive. Você bebe o próprio esgoto. Ferva sempre até ter certeza.
- Cisterna sem tampa e sem descarte da primeira chuva. Fezes de pássaro direto no que você bebe — e a água parece perfeita.
Risco químico da chuva: as primeiras chuvas depois de seca longa trazem mais fumaça, poeira e cinza do ar. Descarte mais nesse caso. Perto de indústria ou queimada intensa a chuva pode trazer contaminante — mas continua sendo, em geral, a fonte mais limpa disponível.
Variação regional
- Semiárido: cisterna é a obra número 1 — o Nordeste brasileiro provou isso com as cisternas de placas. Telhado empoeirado: descarte da primeira chuva é obrigatório.
- Úmido / tropical: água farta; o problema é biológico e o mosquito. Tela em tudo.
- Frio: a cisterna precisa resistir ao gelo — enterrada abaixo da linha de congelamento ou esvaziada antes do inverno.
- Encosta / montanha: nascente sai mais barato que poço. Proteja a saída com caixa de captação e a mesma regra dos 30 m.
- Litoral: a água doce flutua sobre a salgada. Cacimba rasa, acima da linha da maré, e retirada moderada: poço fundo demais ou bombeado demais puxa água salobra.
Fecho prático
Meça hoje o telhado de onde você está (frente × fundo, contando os beirais). Esse número, em metros quadrados, é quantos litros você ganha de graça a cada milímetro de chuva.
Fontes
- Sphere — The Sphere Handbook, padrões de água e saneamento (15 L/pessoa/dia; 2,5–3 L para beber e comer; latrina a pelo menos 30 m da fonte).
- OMS — Inspeção sanitária de poço cavado (primeiros 3 m do revestimento impermeáveis; calçada de pelo menos 1 m com caimento para fora).
- OMS/WEDC — Nota técnica 1: limpeza e desinfecção de poços (gás cloro; limpar a parede por fora com escova de cabo longo).
- Oxfam WASH — Repairing, cleaning and disinfecting hand dug wells (monóxido de carbono de motores; corda presa a quem desce; ventilação).
- Martinson e Thomas — Quantifying the first-flush phenomenon (cada milímetro descartado reduz a carga de contaminantes pela metade, como regra geral).
