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  • Angola vs Regional — Por Que as Duas Capoeiras Tocam Diferente

    Angola vs Regional — Por Que as Duas Capoeiras Tocam Diferente

    “Fecha o olho.”

    Angola vs Regional — Por Que as Duas Capoeiras Tocam Diferente
    Wikimedia Commons — CC BY 2.0, autor TheTurducken

    Mestre Risadinha pediu coisa rara. Os alunos fecharam.

    O berimbau começou a tocar. Lento. Hipnótico. Cada nota parecia vir de um tempo muito antigo, como se o arame vibrasse não com a pedra, mas com a memória de um povo. O corpo pedia pra gingar devagar, rente ao chão. Era Angola.

    De repente — dim-dim-dim-dim — o ritmo acelerou. O toque ficou vibrante, elétrico, convidando a perna a subir, o corpo a girar. Era São Bento Grande de Regional.

    “Abram o olho.” Os alunos abriram. “Vocês acabaram de ouvir a diferença entre as duas capoeiras. Não no golpe — na música.”

    Duas Capoeiras, Duas Orquestras

    A Capoeira Angola e a Capoeira Regional não são só estilos diferentes de jogar. São estilos diferentes de tocar. E a diferença começa na formação da bateria.

    Na Angola, a orquestra é farta: três berimbaus (gunga, médio e viola), atabaque, pandeiro, agogô e reco-reco — até oito instrumentos tocando juntos. O som é denso, texturizado, cheio de camadas. Cada instrumento tem seu papel: o gunga mantém a base, o médio inverte o toque, o viola improvisa, o atabaque pulsa como coração.

    “A Angola é como uma orquestra de câmara”, comparou Mestre Risadinha. “Cada músico tem sua voz, e o conjunto é maior que a soma das partes.”

    Na Regional de Mestre Bimba, a orquestra foi enxugada: um berimbau e dois pandeiros. Só. O foco é a clareza do toque e a velocidade. O cantador precisa ser ouvido com nitidez, porque na Regional o jogo é mais rápido e as instruções não podem se perder no meio de muitos instrumentos.

    “Bimba simplificou de propósito”, explicou o mestre. “A Regional foi feita pra academia, pra aula, pra competição. Precisava ser objetiva.”

    Os Toques Marcantes de Cada Estilo

    • Angola usa principalmente os toques: Angola (lento, solene), São Bento Pequeno (intermediário) e Benguela (quebrado, jogo de corpo próximo).
    • Regional usa principalmente: São Bento Grande de Regional (rápido, vibrante, acrobático), Iúna (cerimonial, só para formados) e Cavalaria (histórico, de alerta).

    “Tem toques que são usados nos dois estilos”, acrescentou o mestre, “mas com pegada diferente. O São Bento Grande na Angola é um pouco mais lento e malicioso. Na Regional, ele é explosivo.”

    O Canto Também Muda

    Na Angola, o canto começa com ladainha longa — às vezes com dezenas de versos narrando uma história inteira. Depois vem a chula de saudação e finalmente os corridos. O ritual é pausado, contemplativo, quase religioso.

    Na Regional, Mestre Bimba substituiu a ladainha pela quadra — quatro versos rápidos seguidos do refrão do coro. É mais compacto, mais direto, mais adequado ao ritmo de treino.

    “Nenhum é melhor que o outro”, concluiu Mestre Risadinha. “A Angola preserva a tradição como quem guarda um tesouro antigo. A Regional adapta a tradição pra que ela sobreviva no mundo moderno. As duas são necessárias.”

  • Mestre Bimba — O Homem Que Convenceu o Presidente

    Mestre Bimba — O Homem Que Convenceu o Presidente

    Era 1953. O homem mais poderoso do Brasil, o presidente Getúlio Vargas, estava sentado no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. E na frente dele, um baiano de bigode fino, com um berimbau na mão e oito alunos perfilados, ia mostrar algo que era oficialmente proibido no país.

    Mestre Bimba — O Homem Que Convenceu o Presidente
    Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0, autor Paul R. Burley

    “Ele deve ter pensado: ou isso dá muito certo ou eu vou preso”, riu Mestre Risadinha. “Mas Bimba nunca teve medo de nada.”

    O Menino Que Falava Com Os Pés

    Manuel dos Reis Machado nasceu em 1899, em Salvador, num bairro chamado Engenho Velho de Brotas. A Bahia da virada do século era um lugar duro para um menino negro e pobre. Mas Manuel tinha algo que ninguém podia tirar dele: um corpo que parecia ter nascido para a capoeira.

    Começou a treinar com 12 anos, com um africano chamado Bentinho — mestre de uma capoeira que ainda não tinha nome, a que depois seria chamada de “Angola”. Em pouco tempo, o menino Manuel virou Mestre Bimba, e sua fama correu Salvador.

    “Dizem que ele aceitava desafios de qualquer lutador”, contou Mestre Risadinha. “Jiu-jítsu, boxe, luta livre — Bimba botava todos pra dormir.”

    O Problema da Capoeira nos Anos 1930

    Nos anos 1930, a capoeira ainda era malvista. A lei de 1890 tinha caído, mas o preconceito continuava firme. Capoeira era “coisa de malandro”, “de vagabundo”. Pais de família proibiam os filhos de chegar perto de uma roda.

    Mestre Bimba percebeu que, se a capoeira quisesse sobreviver, precisava mudar. Não perder sua essência — mas se vestir de forma diferente. Foi aí que ele criou o que chamou de Luta Regional Baiana.

    “Ele não chamou de capoeira de propósito”, explicou o mestre. “Chamou de ‘luta regional’ porque ‘capoeira’ era palavrão.”

    As Inovações de Bimba

    A Capoeira Regional — como ficou conhecida — trouxe várias mudanças:

    • Golpes mais altos e rápidos. Bimba incorporou movimentos de outras lutas, como o batuque e a luta greco-romana.
    • Sequências de ensino. Ele organizou o ensino em sequências progressivas — do básico ao avançado — criando a primeira metodologia estruturada da capoeira. Era a primeira “metodologia” da capoeira.
    • Formatura. Bimba criou a primeira cerimônia de formatura — o “batizado” primitivo, onde o aluno recebia um lenço azul ou vermelho.
    • Regras. Ele exigia que seus alunos tivessem emprego fixo ou estivessem estudando. Nada de malandragem. Queria mostrar que capoeirista podia ser trabalhador, estudante, cidadão respeitável.

    “Isso foi revolucionário”, disse Mestre Risadinha. “Bimba tirou a capoeira da margem e botou no centro da sociedade.”

    O Dia Que Mudou Tudo

    Em 23 de julho de 1953, Mestre Bimba e seus alunos se apresentaram no Palácio do Catete para Getúlio Vargas. Diz a lenda que o presidente, impressionado, declarou: “A capoeira é o único esporte verdadeiramente nacional.”

    Essa frase — seja ela lenda ou fato — abriu as portas. A partir dali, a capoeira começou a sair dos terreiros escondidos e entrar nas academias, nas escolas, nas universidades.

    Bimba faleceu em 5 de fevereiro de 1974, em Goiânia, longe de sua Bahia — uma injustiça que a história ainda não corrigiu completamente. Mas seu legado é maior do que qualquer tristeza: ele é reconhecido como o pai da capoeira moderna.

    “Sem Bimba”, concluiu Mestre Risadinha, “talvez a capoeira ainda fosse proibida. Ou pior: talvez tivesse desaparecido.”

    Na próxima aula: o homem que escolheu o caminho oposto — em vez de mudar a capoeira, decidiu protegê-la exatamente como era.