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  • K-pop & Afrobeat: Os Gêneros que Conquistaram o Planeta (e o Brasil)

    K-pop & Afrobeat: Os Gêneros que Conquistaram o Planeta (e o Brasil)

    Há duas décadas, a ideia de que um grupo de K-pop coreano lotaria estádios no Brasil — ou que o afrobeat nigeriano dominaria paradas globais — soaria como delírio. Mas em 2026, esses são exatamente dois dos gêneros mais influentes do planeta. BTS e BLACKPINK construíram um império cultural que rivaliza com qualquer fenômeno pop ocidental. Fela Kuti — falecido em 1997 — se tornou referência obrigatória para artistas de todos os continentes, e Burna Boy, Wizkid e Tems representam uma nova África que pauta a música global. Esta é a história de como dois gêneros nascidos fora do eixo EUA-Europa redefiniram o mapa da música pop no século XXI.

    K-pop: muito além da música

    O K-pop não é apenas um gênero musical — é um ecossistema industrial completo que inclui música, moda, coreografia, cinema, mídias sociais e um sistema de treinamento de artistas que parece saído de uma distopia corporativa (ou de um sonho, dependendo do ponto de vista). As grandes agências — SM Entertainment, YG Entertainment, JYP Entertainment e HYBE — recrutam adolescentes, os treinam por anos em canto, dança, atuação e idiomas estrangeiros, e então os lançam como integrantes de grupos meticulosamente planejados.

    O BTS, grupo de sete integrantes formado pela Big Hit (hoje HYBE) em 2013, é o caso mais emblemático. Partindo de uma agência pequena — quase falida —, o BTS construiu uma base de fãs global, os ARMYs, que é provavelmente a comunidade de fãs mais organizada, engajada e poderosa da história da música. Eles fizeram campanhas de caridade, influenciaram eleições, derrubaram aplicativos de concorrentes com avaliações negativas em massa, lotaram estádios em todos os continentes e, em 2020, se tornaram os primeiros artistas coreanos a chegar ao topo da Billboard Hot 100 com “Dynamite” — cantada em inglês.

    O impacto econômico do BTS na Coreia do Sul é estimado em bilhões de dólares anuais. O grupo é tão importante para a economia coreana que o governo sul-coreano criou isenções especiais de serviço militar para artistas que “promovem o prestígio nacional” — uma medida diretamente influenciada pelo fenômeno BTS. Em 2022, os membros começaram a se alistar individualmente, e a pausa do grupo gerou comoção global. A previsão de retorno das atividades completas do grupo em 2025-2026 é um dos eventos mais aguardados da indústria do entretenimento global.

    O BLACKPINK, quarteto feminino da YG Entertainment, seguiu trajetória paralela de sucesso. Jennie, Lisa, Jisoo e Rosé são individualmente estrelas globais — com contratos de moda, atuação e música solo — e coletivamente o grupo feminino mais bem-sucedido da história do K-pop. O show do BLACKPINK no Brasil em 2023, no Allianz Parque, esgotou em minutos. O K-pop no Brasil tem uma base de fãs enorme, dedicada e extremamente organizada, que realiza eventos, festas temáticas, projetos de streaming coordenados e campanhas de caridade em nome de seus ídolos — um fenômeno cultural que merece estudo sério.

    Afrobeat: a África no centro do mapa musical

    Fela Kuti — nigeriano, multi-instrumentista, ativista político e criador do afrobeat — é uma das figuras mais importantes da música do século XX. Nos anos 1970, Fela criou um som que misturava highlife ganense, jazz americano, funk e ritmos tradicionais yorubás, com letras políticas ferozes contra a ditadura militar nigeriana e o neocolonialismo. Suas músicas frequentemente passavam de 15 minutos — “Zombie” (1977), “Water No Get Enemy” (1975) e “Sorrow, Tears and Blood” (1977) são épicos musicais e políticos que custaram a Fela prisões, espancamentos e a morte de sua mãe, atirada por soldados nigerianos da janela de seu complexo, a Kalakuta Republic.

    O musical “Fela!” na Broadway (2009) e o legado de seus filhos — Femi Kuti e Seun Kuti, que mantêm o afrobeat político vivo — ajudaram a revitalizar o interesse global pelo gênero. Mas o verdadeiro renascimento do afrobeat veio com uma nova geração de artistas africanos que pegaram a base criada por Fela e a levaram para o pop global do século XXI.

    Burna Boy é o nome principal dessa nova onda. O neto do lendário manager de Fela Kuti, Burna Boy cunhou o termo “afrofusion” para descrever seu som — que mistura afrobeat, dancehall, hip-hop e R&B. Seu álbum “African Giant” (2019) foi indicado ao Grammy, e “Twice as Tall” (2020) venceu o prêmio de Melhor Álbum de Música Global. O show de Burna Boy no Rock in Rio 2024 foi um dos momentos mais celebrados do festival, com público brasileiro cantando as letras em inglês, pidgin e yorubá.

    Wizkid, outra estrela nigeriana (cujo hit “Essence” com Tems virou fenômeno global em 2021-2022), Tems — cantora e produtora nigeriana que colaborou com Drake, Future e Beyoncé —, Davido, Rema (cujo hit “Calm Down” foi onipresente em 2023-2024) e a sul-africana Tyla representam um continente que finalmente está no centro do mainstream pop global, não mais como exotismo ou curiosidade, mas como protagonista. Em 2026, as playlists das principais plataformas de streaming têm seções dedicadas exclusivamente ao afrobeat, e as colaborações entre artistas africanos e brasileiros — dois gigantes da população negra global — se multiplicam.

    Coreia do Sul e Nigéria: dois países que, até outro dia, ninguém associava a potências da indústria musical global. Mas o K-pop e o afrobeat não chegaram ao topo por acaso — eles representam o que acontece quando culturas inteiras decidem que não vão mais esperar a vez. Eles simplesmente criaram seu próprio jogo — e o mundo todo resolveu jogar junto.