“Quanto tempo vocês acham que a capoeira ficou proibida no Brasil?”
Mestre Risadinha olhou para os alunos. As respostas vieram: “Dez anos?” “Vinte?”
“Quase cinquenta anos. Meio século. Duas gerações inteiras de brasileiros nasceram, cresceram e morreram num país onde mexer o corpo na ginga dava cadeia.”
O berimbau ficou em silêncio.
“E foi preciso um governo militar pra legalizar a capoeira. O mundo dá voltas, né?”
Os Anos Entre a Proibição e a Liberdade
O Código Penal de 1890 dizia claramente: capoeira é crime. Mas, como toda lei no Brasil, a realidade era mais complicada. A repressão variava de estado pra estado, de década pra década.
No Rio de Janeiro da Belle Époque (1900-1920), a polícia caçava capoeiristas com ferocidade. Na Bahia, a perseguição era mais branda — tanto que Mestre Bimba abriu sua academia oficialmente em 1937, registrada em cartório, com alvará de funcionamento. Como? Porque ele não chamava de capoeira. Chamava de “Curso de Educação Física — Luta Regional Baiana”.
“Bimba era malandro também”, riu Mestre Risadinha. “Deu um drible jurídico nos caras.”
Em São Paulo, o preconceito era diferente. Como a cidade cresceu com imigração europeia, a capoeira era vista como “coisa de baiano” — um olhar que misturava xenofobia com racismo. Muitos capoeiristas paulistas treinavam em casa, com janelas fechadas, berimbau sem cabaça pra não fazer barulho.
1972 — A Portaria Que Mudou Tudo
Em 1972, durante o governo militar, o Conselho Nacional de Desportos publicou uma portaria que mudaria a história brasileira. Não parece grande coisa — é uma portaria, não uma lei —, mas o que ela dizia era histórico:
A capoeira passa a ser reconhecida como modalidade esportiva nacional, sendo oficialmente incorporada ao sistema esportivo brasileiro.
O governo militar — o mesmo que perseguia opositores políticos — foi o responsável por dar à capoeira o status de esporte nacional. Por quê?
“Porque os militares viram na capoeira uma oportunidade de propaganda”, explicou Mestre Risadinha. “Eles queriam mostrar pro mundo que o Brasil tinha uma identidade própria. E a capoeira era genuinamente brasileira — ninguém podia negar.”
Foi um casamento estranho, mas funcionou. A partir de 1972, a capoeira podia ser ensinada em escolas, academias, universidades e clubes. Nasciam as primeiras federações estaduais. Os mestres começaram a sair do Brasil para dar aulas na Europa e nos Estados Unidos.
O Que Mudou na Prática
A legalização não foi só simbólica. Ela trouxe mudanças profundas:
- Surgimento dos sistemas de graduação. Inspirados nas faixas de judô, os grupos de capoeira criaram sistemas de cordas (ou cordéis) como a gente conhece hoje: crua, amarela, laranja, azul…
- Profissionalização. O capoeirista passou a poder viver da capoeira — dando aula, competindo, fazendo shows e apresentações culturais.
- Expansão internacional. Sem a mancha de “esporte de marginais”, a capoeira cruzou fronteiras e fincou raízes em mais de 150 países.
- Capoeira nas escolas. Começaram projetos de capoeira na educação infantil e no ensino fundamental — exatamente o que a gente faz hoje no Projeto Semear GSP.
2014 — O Reconhecimento Máximo
Se 1972 foi a certidão de nascimento da capoeira como esporte, 2014 foi sua consagração como patrimônio da humanidade. No dia 26 de novembro daquele ano, a UNESCO declarou a Roda de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
“Imagina o tamanho disso”, disse Mestre Risadinha, os olhos marejados. “Uma arte que nasceu nos porões dos navios negreiros, que sobreviveu à escravidão, à proibição, ao preconceito — e agora tá no mesmo patamar que o tango argentino, a ópera chinesa e o flamenco espanhol.”
Ele levantou o berimbau com as duas mãos, como quem ergue um troféu.
“Isso aqui não é um instrumento. É a alma de um povo que se recusou a morrer.”
A roda começou a cantar sozinha: “Iê, viva a capoeira, camará… Iê, é patrimônio mundial…”
E a aula terminou com o som mais antigo do Brasil ecoando no salão — a cabaça vibrando, o arame respondendo, e a voz de Mestre Risadinha guiando a todos como quem guia um barco em mar calmo.